14 de novembro de 2006

13 ANOS DE HISTÓRIA - POSSE HAUSA


CARTA ABERTA A MILITANCIA NEGRA BRASILEIRA 13 ANOS DE HISTÓRIA - POSSE HAUSA
Nesse dia, 26 de junho de 2006, venho saudar essa entidade que há 13 anos vem trabalhando em prol da alto estima, do incentivo, da busca dos seus objetivos, do conhecimento de nossa história e de nossa importância histórica, na valorização do movimento Hip-Hop verdadeiro com um recorte racial, ao afastamento do consumo de drogas, licitas ou ilícitas, para nossa juventude negra levando como bandeira o Hip-Hop e sua importância na formação da identidade étnica aqui no Brasil e no mundo.
O que é hip hop?
Hip-Hop e um Movimento construído através dos anseios vivenciados por grupos socialmente e racialmente excluídos de seus direitos tendo em sua estrutura uma cultura, que causa o entretenimento dessa classe ao mesmo tempo que garante a oportunidade de expor seus pensamentos expressados na mais pura arte afroperiférica.
Sua estrutura possui 5 elementos e se falta algum deles em qualquer atividade se descaracteriza o conceito de Hip-Hop pois cada elemento tem sua importância e o conjunto deles que se torna verídico a manifestação periféricamente conhecida por HIP-HOP.
0 que é Posse?
É a união de dois ou mais elementos com um certo número de pessoas indeterminado, com interesse comum, podendo ser eles dança com principal característica primordial o break, grafite, M.C, D.J. e o 5º elemento que é o conhecimento que têm como importância o desenvolvimento da cultura Hip Hop.
O que é Hausa?

Etnia africana muçulmana localizada ao norte da Nigéria e atualmente encontra-se no noroeste, e tem como importância para povo negro e/ou afro-brasileiro a Revolta dos Malês que aconteceu em 1835 na Bahia.
Abaixo vocês poderão acompanhar um pouco de nossa trajetória que ajudou entre outras coisas a difundir o hip-hop e a auto estima da população negra na Grande São Paulo: -
1992 Os fundadores da Posse Hausa contribuíram para a edição do primeiro livro envolvendo a temática do Hip Hop chamado “ABC RAP”; - 1993 surge a Organização Posse Hausa; - 1993 Construção e participação das ações ligadas a Semana da Consciência Negra
1993 - Ciclo de palestra para alunos/as do Programa de Alfabetização de Adultos e jovens (PAC) abrangendo um público de cerca de 450 pessoas, nas unidades educacionais das EMEI’s ( escolas municipais de educação infantil) e SAB’s (sociedades amigos de bairros), em SBC -
1993 Palestra para alunas do CEFAM – Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério, , em S.B. Campo; -
1993, 1994, 1995 e 1996; Participação e apoio ao Seminário Negro Consciência e Cidadania Promovido pelo MNU em co-organização com a Prefeitura de Diadema e demais formas organizativas do município. -
1992,1993 e 1995 Palestras para alunos/as do CELGA – EEPSG Lauro Gomes Almeida, em SBC; -
1993 Ato Público em protesto pela morte de Fábio Oliveira dos Santos, em Santo André, assassinado pelo “Carecas do ABC”; -
1994 Palestras junto a escolas de 1º e 2º graus para alunos/as em São Bernardo, S. André, Diadema e São Paulo; -
1995 A criação do Acervo Especial de Culturas Africanas e Afro-Americanas em parceria com o MNU, na Biblioteca Jardim Paineiras, em Diadema, a única referência para leitores e pesquisadores sobre a questão racial, na Região do ABCDMRR. Este Acervo, também, surge no bojo das discussões acerca de políticas públicas para a população negra; -
1994 e 1995 - Encaminhamento de minutas de projetos de lei, acompanhamento da aprovação de lei que inclui nos currículos escolares da rede municipal de Diadema e Mauá, a História de África e a contribuição sócio-econômica e político-cultural do negro na sociedade brasileira. Leis estas aprovadas, respectivamente, em, através do vereador e da vereadora : Armelindo Santana ( Diadema ) e Diva Alves ( Mauá) ;
1992, Organizamos o “I Encontro de Posses no ABC – Caminhos do RAP” , em com apoio da PMSBC; - Realizamos o curso “Reaja à Violência Racial” para jovens ligados ao movimento hip-hop, organizado pelo MNU atendendo a solicitação da Posse Hausa, durante os meses de agosto, setembro. Outubro, novembro e dezembro de 1995; - Participamos da Comissão da Marcha à Brasília da Região do ABCDMRR, formada em 30.09.1995, organizando reuniões, elaborando o Boletim da Marcha (out/95), recepcionando e encaminhando os participantes à Brasília;
1993 a 1997 Elaboramos e distribuímos em feiras afros, salão de bailes black, atividades culturais, entre outros lugares Fanzines com o objetivo de divulgar a cultura e a história da população negra retratando as lideranças negras do mundo; -
1997 I Passeata da Juventude Negra contra o Racismo em SBC fechando a atividade com shows dos grupos da Posse e convidados no pátio municipal de São Bernardo; -
1998 e 1999 – em parceria com a Secretaria da saúde realizamos oficinas para os “internos” da FEBEM ligados ao Projeto DST/AIDS; -
1999 – criação do grupo Alquimistas formado pelos integrantes da Posse Hausa: Mira Direta, Johannesburgo e Postura Ofensiva; - 2000 – produção do CD do grupo Alquimistas -
2001 formação musical dos integrantes na área de produção de bases -
2002 – completou 10 anos realizando evento na sede do Projeto de Meninos e Meninas de Rua de São Bernardo do Campo contando com a presença de lideranças do movimento negro e lideranças da juventude; -
2002 e 2003 – participação II e III Fórum Social Mundial em Porto Alegre; -
2002 – nasce o grupo Zenzelê formado por jovens mulheres militantes da Posse Hausa; -
2003 -em fevereiro, a organização Posse Hausa tornou-se Associação sem fins lucrativos; -
2003 – Seminário de Formação com o tema “Políticas Públicas Culturais” desenvolvido pelo Hamilton Borges Wualê; -
2003 – participação na Semana da Cultura Hip Hop realizado pela ONG Ação Educativa; -
2003 e 2004 – promovemos o mês de Consciência Negra na cidade de São Bernardo do Campo em parceria com o Departamento de Cultura da Prefeitura de São Bernardo do Campo; -
2003 – participação no evento Grito da Periferia organizado pelas comunidades periféricas de São Bernardo do Campo; -
2004 – participação na I Conferência Municipal para Promoção da Igualdade Racial de São Paulo; -
2004 – palestra na comunidade do Areião com o tema Mês da Consciência Negra.
2005 – articulação e coordenação da Conferência Regional para Promoção da Igualdade Racial de São Bernardo do Campo; -
2005 – participação na Conferência Municipal para a Promoção da Igualdade Racial de São Bernardo do Campo. -
2005 construção coletiva com outras posses de Hip-Hop do evento “HIP-HOP DANDARA ZUMBI +10” que visitou 8 cidades da grande São Paulo com Shows de Hip-Hop (dos 4 elementos) e falando durante o evento sobre a importância histórica de nosso Herói Zumbi dos Palmares, a marcha a Brasília e do estatuto da igualdade racial cobrando sua implementação com verba. -
2005 Inicio dos trabalhos referente a levantar a histório do Movimento Hip-Hop do ABC paulista e sua contribuição para o desenvolvimento do hip-hop no Brasil.
2006 – Constitui junto com outros coletivos juvenis negros a construção do ENJUNE – Encontro Nacional de Juventude Negra que tem por objetivo socializar informações, ações e pensamentos dessa juventude nacionalmente fazendo processos municipais, regionais, estaduais, e nacional trazendo contribuições sobre 15 eixos temáticos. A saúde da população negra, direitos sexuais, geração de trabalho e renda, educação, comunidades remanescentes de quilombos, ações afirmativas e políticas de reparação, cultura e relações de classe e raça serão alguns dos temas a serem debatidos neste encontro. Estão previstas também discussões sobre meios de comunicação mais democráticos e disseminadores de informação de qualidade para a juventude negra, uma formação universitária mais compromissada com o social, o direito à cidadania, à educação e à participação política e social. Os frutos desses debates terão três direcionamentos. O 1º seria as ações a qual a própria juventude negra precisa exercer para alcançar tal objetivo proposto, o 2º seria indicações ao 3º setor (ongs, sindicatos, etc) com uma perspectiva juvenil sobre formas de alcançar tais objetivos e o 3º seria o poder publico aonde iremos avaliar as políticas publicas existentes, propor modificação as que não vem funcionando e se necessário, desenvolver novas políticas com objetivo de atender nossas demandas sobre o tema. Esse encontro está previsto para o ano de 2007 e estamos rodando os estados brasileiros para chamar a juventude negra com o intuito que a mesma assuma seu papel de agente das mudanças necessárias para uma nova perspectiva nas lutas étnico / raciais em nosso país.
Para o 2º semestre de 2006 a Hausa estará promovendo em parceria com o Projeto meninos e Meninas de Rua e Movimento Negro Unificado em São Bernardo do Campo um ciclo de palestras e debates para discutir questões ligadas ao dia a dia da juventude negra e com o fechamento de cada atividade com shows de Hip-Hop e musica afro contando inclusive com grupos de outros estados brasileiros na programação. Também estamos vendo a possibilidade de mobilizar a juventude negra da Grande São Paulo a fazermos a 2 marcha da Juventude Negra no ABC Paulista para denunciar o genocídio que a mesma vem sofrendo em todo território nacional. Por tudo isso queremos agradecer a todos parceiros que nesses anos foram extremamente importantes para realizações dessas atividades mais gostaria de citar duas organizações em especial que merecem todo nosso apreço pois foram fundamentais para nosso crescimento individual e coletivo que são o Movimento Negro Unificado –GT Balogum representado por nossos “Babas” Adomair Ogumbiyi e Dona Ilma Fátima de Jesus que nos deu uma formação que foi além de qualquer expectativa nos transformando em homens e mulheres cientes de nosso papel na sociedade. Também gostaria de citar o Projeto Meninos e Meninas de Ruas – São Bernardo do Campo na pessoa de Marquinhos, coordenador geral que por muito tempo nos acolheu em sua sede para que realizássemos varias dessas atividades além de nos colocar diariamente com a realidade vivida por meninos e meninas de rua que passam a muitos anos por vários tipos de problemas familiares, sociais e raciais a qual temos que ter uma atenção diferenciada a essas crianças.
Nossos projetos enquanto grupo organizado vai de oficinas de Hip-Hop, formação político / racial, workshops, mostra de filmes, palestras, seminários, elaboração de fanzines, biblioteca e videoteca comunitária, estúdio de produção musical, tele-centros , construção de documentários e textos reflexivos, espaço e estrutura para realização de shows musicais e teatrais, além de um ponto de encontro e referência afro-juvenil em nossa cidade que a muito tempo vem perdendo esses espaços por motivos diversos que demonstram a política de eliminação e segregação de locais de entretenimento e de referência racial em São Bernardo. Portanto, estamos na luta para alcançarmos nossa sede que poderá sanar essas demandas apontadas, e fazer desse espaço uma opção importante aquelas pessoas que buscam uma oportunidade de constituir em suas vidas uma história que vai de contra as estatísticas que brutalmente nos coloca e comprova uma ação de exclusão e extermínio do povo negro na África e na diáspora.
FORÇA E RESISTÊNCIA SEMPRE!
PARABÉNS HAUSAS!
Honerê Al-amin Oadq
Coordenador Geral – Posse Hausa
55 11 4123-2733 / 4122-2400 / 9832-1582
ENJUNE Encontro Nacional de Juventude Negra http://br.groups.yahoo.com/group/ENJUNE/

III MARCHA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

12 de novembro de 2006

O ANTIGO EGITO E O CONHECIMENTO HUMANO



O ANTIGO EGITO E O CONHECIMENTO HUMANO

Na versão corrente da história da filosofia, da ciência e da civilização ocidental, elas brotam subitamente na Grécia antiga, como se não tivessem raízes anteriores no Egito, cujas pirâmides são frutos da construção, ao longo de vários milênios, de um profundo e desenvolvido conhecimento humano. Os hieróglifos egípcios e seus antecedentes constituem o primeiro sistema de escrita, e o calendário do Egito antigo era mais exato do que o moderno. O sistema dos mistérios continha os principais elementos da ética e arrazoados sobre a vida em sociedade. Os egípcios manipulavam uma adiantada matemática abstrata desde treze séculos antes de Euclides: identificavam o valor de pi com uma exatidão sem precedentes; calculavam ângulos à precisão de 0,07o; desenvolviam sofisticadas técnicas e teoremas na matemática, geometria e engenharia.
Hipócrates, o médico grego, é tido como fundador da medicina, quando dois milênios e meio antes os egípcios Atótis, Imhotep e seus sucessores desenvolviam os fundamentos de uma medicina objetiva e científica. Datada de 2.600 a.C., o papiro Smith, contém capítulos sobre doenças intestinais, hemintiase, oftalmalogia, dermatologia, ginecologia, obstetria, diagnóstica de gravidez, odontologia, e o tratamento cirúrgico de abscessos, tumores, fraturas e queimaduras. Esses egípcios iniciavam o conhecimento da farmacologia, patologia e anatomia, das técnicas de assepsia, hemostasia por cauterização, suturas, antissepsia com sais minerais, e vários outros tratamentos e curas.
Não podemos expor aqui os conteúdos do conhecimento e os avanços tecnológicos alcançados pela civilização egípcia. Cumpre registrar a tentativa de seu aniquilamento nos anais de uma História vista e projetada através de uma lente que apresenta o “milagre grego” como início prístino do desenvolvimento do conhecimento.
Outra forma de negação do legado africano é a insistência em caracterizar a civilização egípcia como realização de outros povos, invasores do norte, ou ainda a persistente negação da identidade africana e negra dos egípcios. A obra de Cheikh Anta Diop, referência básica do resgate desse legado civilizatório, restabelece essas verdades por meio de rigorosa pesquisa científica.

O DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO AFRICANO

Tais conquistas não se restringem apenas ao Egito. As tecnologias de mineração e metalurgia, a agricultura e a criação de gado, as ciências, a medicina, a matemática, a engenharia, a astronomia, enfim, todo um cabedal de reflexão e conhecimento caracterizava o desenvolvimento dos estados africanos. Em 1879, um cirurgião inglês visitava a região do atual país de Uganda, e registrou uma cesariana feita por médicos do povo banyoro, demonstrando profundo conhecimento dos conceitos e técnicas de assepsia, anestesia, hemostasia, cauterização, e outros aspectos da medicina. Praticava-se a remoção de cataratas oculares através de cirurgias, e tumores cerebrais eram operados no Egito, há mais de quatro milênios.
A astronomia é um destaque do saber africano. No Quênia, encontram-se, ao lado do Lago Turkana, os restos de um observatório astronômico semelhante a Stonehenge, na Inglaterra. Um sistema de calendário complexo e preciso foi desenvolvido até o primeiro milênio a.C. na África oriental, com base nos cálculos astronômicos. Os dogon, que vivem nas terras do antigo império de Mali, perto da capital universitário de Timbuktu, detêm uma concepção moderna do universo e um conceito extremamente complexo da astronomia. Desde há seis séculos, eles já conheciam o sistema solar, a Via Láctea com sua estrutura espiral, as luas de Júpiter, e os anéis de Saturno. Sabiam da natureza deserta e infecunda da lua, e muito antes que o ocidente conseguisse observá-lo com a ajuda de sofisticados aparelhos, conheciam o pequenino satélite da estrela Sírio, o Sírio B, invisível ao olho nu. Denominavam-no PoTolo, e desenhavam, com exata precisão, a sua órbita elítica em torno de Sírio. Projetaram corretamente a sua trajetória até o ano 1990, em desenhos que conferem precisamente com o curso projetado pela astronomia moderna.

No campo da metalurgia, há vários exemplos como o dos haya, povo de fala banta habitante de uma região de Tanzânia perto do lago Vitória. Há dois mil anos, produziam aço em fornos que atingiam temperaturas bem mais altas do que fossem capazes os fornos europeus até o século XIX. Com base na tradição oral, a antiga tecnologia de fundição foi reproduzida fisicamente, confirmando sua eficácia.
Monomatapa, em Zimbábue, é outro exemplo da tecnologia aplicada na África antiga. Capital de um império que durou trezentos anos, sua construção significa uma verdadeira façanha de engenharia, encerrando uma cidade murada de dez mil habitantes. Estudiosos atribuíram sua construção a povos exógenos à África, e até a extraterrestres. Entretanto, o esforço de negar à África a sua autoria foi em vão, e este se agrega a outros incontáveis exemplos do desenvolvimento tecnológico na África tradicional.

ASPECTOS ANTIGOS DA QUESTÃO DE GÊNERO

Como observamos no início, o racismo e o patriarcalismo se cruzam numa dinâmica de interação e dependência mútua. A crítica à dominação racial se entrelaça com a crítica ao patriarcalismo.
Cheikh Anta Diop mostra que um dos principais elos a unir as culturas pré-coloniais da África é a organização social matrilinear, ou seja, aquela em que a ancestralidade é traçada a partir da mãe e, ao contrário das sociedades patriarcais, a mulher exerce direitos como o de herdar e ser proprietária.
A noção da evolução universal postula que todos os povos humanos avançam desde o estágio da “horda primitiva” e as fases de matriarcalismo e matrilinearidade (também “primitivas”), até atingir o ápice do desenvolvimento, estágio da luz: o patriarcalismo. Diop analisa o viés eurocentrista dessa teoria, sua falta de sustentação empírica e seu embasamento na distorção dos dados.
O chamado “estágio primitivo” da matrilinearidade caracterizava algumas das sociedades mais adiantadas e altamente organizadas da história, como as do Egito e do império de Gana. Nelas, a mulher protagonizava a organização jurídica, econômica, social e política. Indaga Diop, contestando a teoria evolucionista: qual a sociedade mais plenamente desenvolvida - a que nega à metade de sua população a plena condição humana, ou a que reconhece e estimula em todos a sua capacidade de realização e contribuição à vida coletiva?
No caso do Egito antigo, a partilha do poder no âmbito político e religioso vem desde os tempos míticos. O primeiro soberano e deus, Osíris, governa em conjunto com sua irmã Ísis, dona do conhecimento da agricultura que o transmitiu à humanidade. Assassinado, Osíris vê seu corpo despedaçado e os pedaços espalhados pelos quatro cantos do mundo. Ísis reconstitui o corpodo irmão e o ressuscita. Ela ensina ao povo a filosofia do Ma’at - justiça, verdade e direito, matriz ética da nação.
As mulheres governantes são várias no Egito e na África. Cleópatra defendeu a soberania de sue país frente ao maior poder imperialista que o mundo conhecera. As rainhas-mães africanas se estabelecem na antiga Núbia com a linhagem das Candaces, que reinavam por direito próprio e não na qualidade de esposas, exercendo o poder civil e militar. Angola nos dá o exemplo da Rainha N’Zinha, contemporânea de Zumbi que resistiu aos dominadores portugueses e holandeses. Gana se orgulha da rainha Yaa Asantewaa, que liderou a guerra dos Asante contra o domínio inglês. Esses exemplos confirmam uma tradição que nasce de profundas raízes histórico-culturais: o sistema social e político matrilinear que define, nos seus primórdios, o ambiente social africana.
Aí encontramos a origem histórica da mulher Oya que Mãe Stella descreveu com tanta eloqüência e que informa a nova imagem da mulher negra brasileira, contrastada à Mãe Preta da sociedade escravista. A antiga civilização africana conta com mulheres soberanas e propicia a partilha do poder entre os sexos. A Mãe África é a fonte dessa força feminina guerreira.
Em outra ocasião, talvez, poderemos visitar a influência dessa civilização sobre outros povos e sociedades do mundo antigo desde a Europa até o leste da Ásia e as Américas, outra face da fecundidade da Mãe África.
Elisa Larkin Nascimento
Doutora em psicologia pela USP e mestre em direito e em ciências sociais pela Universidade do Estado de Nova Iorque. Ajudou a fundar o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO). Entre outros títulos, é autora de Pan-africanismo na América do Sul (1981), A África na escola brasileira (1991), Sankofa: Resgate da cultura afro-brasileira, 2 vs. (1994), Sankofa: Matrizes africanas da cultura brasileira (1996) e O sortilégio da cor: Raça, Gênero e Identidade no Brasil (tese de doutorado, Instituto de Psicologia da USP, Editora Summus/ Selo Negro, 2003).