12 de abril de 2010

RE-SIGNIFICANDO A NEGRITUDE ATRAVÉS DO MOVIMENTO HIP HOP

por - JAQUELINE LIMA SANTOS


INTRODUÇÃO

Fazer ciência, ou produzir conhecimento, é uma prática tão antiga quanto às sociedades humanas. A ação dos grupos sociais é realizada através de sua experiência empírica, que dão origem ao conhecimento e a cultura que são produzidos e reproduzidos ao longo da história. Mesmo sabendo que cada sociedade organiza sua visão de mundo a partir de sua experiência local, existiram grupos humanos que julgaram-se superiores a outros povos e construíram uma legitimidade para os seus saberes, colocando-os como únicos e universais, categorizando outras formas de pensar como irracionais, partindo assim de um olhar etnocêntrico.

Essa foi a forma como se deu a relação dos europeus com o resto do mundo. Colocando-se como donos da verdade, subordinaram diferentes etnias a sua forma de conhecimento. A antropologia surge como forma de legitimar a dominação dos europeus sobre povos africanos e nativos do continente americano. Vivemos até hoje influências do fazer ciência colonial, devido a essa hegemonia acadêmica imposta pelo homem branco europeu.

Na antropologia, assim como em outras áreas das ciências humanas, se construiu um olhar sobre os povos não-europeus como se estes representassem apenas os objetos de pesquisa dos acadêmicos.

No processo de globalização, a distância que existia entre as sociedades vem diminuindo, e o conhecimento dos povos subordinados, que foram invisibilizados pelos mecanismos de poder, vem se tornando visíveis mundialmente. Os grupos étnicos foram espalhados pelos cinco continentes da terra, alguns foram forçados, outros buscaram novos caminhos. Com isto, as fronteiras existentes entre eles foram amenizadas, e as diferenças culturais ficaram mais próximas do que se poderia imaginar. Nesse contato com a diferença, ao mesmo tempo em que surgem preconceitos, emergem formas de relativizar a convivência com o “outro”.

Essa aproximação com as diferentes visões de mundo poderia mudar os processos metodológicos sobre o estudo das sociedades humanas. A partir do século XX, acontecem muitos avanços no campo da antropologia, no que se diz respeito à compreensão das culturas, e surgem questionamentos em relação à autoridade do etnógrafo. Porém, até os dias de hoje, as relações construídas historicamente, que determinam o “lugar do sujeito” e o “lugar do objeto”, permanecem no ambiente acadêmico.

O europeu que representava o “legítimo construtor de conhecimento” continua a influenciar paradigmas metodológicos dentro das universidades, e os povos ditos “nativos”, que representavam as sociedades distantes das européias, hoje se misturam à sociedade globalizada, como negros e índios, e enfrentam desafios metodológicos ao ocuparem o espaço acadêmico, pois continuam sendo vistos como “objetos de pesquisa”.

Por esse motivo, o campo da antropologia hoje, o qual me encontro inserida, devido à entrada de grupos historicamente tidos como “objetos” na academia, vem passando por uma mudança de paradigmas por todo o mundo, refletindo sobre o conhecimento trazido pela voz de quem foi sempre considerado o “outro”.

A produção de conhecimento desses grupos ditos “subalternos“ não surge hoje, pois é tão antiga quanto eles, mas foi apagada dos meios de comunicação e educação pelos grupos hegemônicos, com o objetivo de supervalorizar um conhecimento eurocêntrico.

Com a entrada dos grupos historicamente discriminados nas universidades, que foram construídas dentro de um modelo europeu de conhecimento, cria-se um conflito epistemológico da ciência.

Esse trabalho reflete esta realidade, visto que para realizar esta pesquisa, eu não estudo o “outro”, mas um grupo que reflete o que eu também sou, juventude negra e movimento HIP HOP.

No meu primeiro capítulo, onde a pergunta colocada é: “Pode o subalterno falar?”, eu realizo uma discussão sobre esse conflito existente dentro do ambiente acadêmico, devido a diversos questionamentos feitos a mim durante pesquisas realizadas nesses quatro anos de universidade, sobre a negra que fala de negritude, a HIP HOPPER que fala de HIP HOP, uma manifestação da cultura negra, que historicamente é objeto de pesquisadores brancos. A existência dessa discussão se dá também pela ausência do conhecimento produzido fora da Europa, em áreas periféricas, no conteúdo didático dos programas de curso, que são ocupados pela intelectualidade branca, e desprezam o conhecimento de grupos socialmente discriminados, como os negros, desqualificando seus trabalhos como produções não-acadêmicas, e sim, militantes.

Por estar iniciando essa trajetória acadêmica, dou uma resposta sobre essa dita “voz subalterna” a partir da minha experiência de pesquisa e de algumas discussões teóricas, mas cabe frisar que nem a antropologia respondeu ainda a essa crise teórico-metodológica, uma discussão atual.

Ao realizar essa discussão sobre mudança de representatividade dentro da universidade, vou para a discussão da construção da identidade negra no movimento HIP HOP.

Na segunda parte desta pesquisa, encontra-se uma explanação teórica sobre o racismo, a escravidão, e a dinâmica estabelecida na travessia do Atlântico, aquilo que Paul Gilroy (1999) chama de “Black Atlantic”, o Atlântico Negro. Procuro discutir a escravidão como um processo dinâmico de exploração e resistência negra. A cultura foi um instrumento dos negros da diáspora para lutar contra o racismo e construir uma identidade valorativa, a negritude.

Após chegar até a segunda metade do século XX, onde os negros da diáspora ainda lutam contra a ideologia do racismo, e os mecanismos de discriminação, buscando uma solidariedade internacional entre os negros do mundo, apresento o surgimento do movimento HIP HOP.

HIP HOP é um movimento sócio-cultural que surge na década de 1960, influenciado por elementos culturais da diáspora africana, composto por cinco elementos: o DJ, o MC, o Breaking, o Graffiti e o conhecimento. Nasce como uma forma de luta contra a opressão racial e é desenvolvido principalmente por jovens negras e negros; vem progressivamente ganhando força nas periferias trabalhando as temáticas do cotidiano dos mesmos.

Com esse trabalho eu procuro apresentar o contexto histórico em que surge este movimento, suas influências históricas e suas características. Assim chego aos sujeitos do meu estudo, a Posse Hausa: “HIP HOP como responsabilidade racial”, frase a qual eles se caracterizam. A Posse Hausa surge em 1993, através da atuação de jovens HIP HOPPERS no ABC paulista. A atuação do grupo se dá por meio da luta contra os mecanismos de discriminação racial, a marginalidade, e a construção da auto-estima do jovem negro.

Construir a auto-estima do jovem negro significa romper com os estereótipos negativos construídos sobre a imagem do negro, e reproduzidos de maneira simbólica na sociedade atual, promovendo o resgate histórico da luta do negro no Brasil e no mundo, valorizando suas características corporais e culturais. É isso que a Posse Hausa desenvolve através dos cinco elementos culturais do HIP HOP.

CAPÍTULO 1
PODE O SUBALTERNO FALAR?

A gênese da antropologia não pensou na possibilidade do objeto virar sujeito das pesquisas etnográficas. Vivemos hoje um momento de mudança de paradigmas teóricos metodológicos e uma transição no que se era costumadamente tratado como objeto de pesquisa, como por exemplo: movimentos sociais, mulheres, negros e índios. Esses segmentos vêm ocupando espaço nas universidades e se tornando produtores de conhecimento sobre os seus próprios grupos.

Passar da condição de objeto para sujeito não é uma tarefa fácil, e se coloca como um desafio a ser enfrentado pelo campo acadêmico, nesse caso, a antropologia nos dias de hoje.

Lembro-me de quando iniciei minha militância no movimento HIP HOP(1998), assim como vários colegas, éramos assediados pelos pesquisadores que queriam saber tudo sobre o HIP HOP e a juventude negra. Essa relação com os pesquisadores muitas vezes tornava-se um confronto, pelo fato de escreverem muitas coisas que nós, sujeitos pesquisados e tratados como objeto pelos acadêmicos, não gostávamos, isso é, quando essas pesquisas chegavam até nós, porque na maioria das vezes nem tínhamos contato com esses trabalhos.

O argumento entre os colegas do HIP HOP era o de que nós deveríamos escrever nossa própria história, entrar na universidade era um caminho para mudar nossa realidade e ao mesmo tempo intervir no espaço acadêmico, levando novos paradigmas para serem discutidos em sala de aula. A crítica feita por todos nós naquele momento (época dos fóruns de HIP HOP – 2000/2003) em relação aos pesquisadores eram as seguintes: 1) Muitas vezes estavam entre nós fazendo pesquisa e não colocavam essa situação; 2) Escreviam muitas coisas que os grupos não concordavam; 3) Após as pesquisas não tinham compromisso nenhum com os grupos, ou seja, não socializavam o conhecimento adquirido a partir das nossas práticas. Na época o desejo era ser mais do que objeto, estávamos em busca de conhecimento, não queríamos ser mais representados na voz do outro, e muitos de nós entramos na universidade.

Em 2004, quando ingressei no curso de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, nem imaginava os desafios a serem enfrentados dentro do processo de construção de conhecimento. Falar que a solução do nosso problema enquanto HIP-HOPPERS era entrar na Universidade, buscar o conhecimento e socializar com os colegas dos nossos grupos, tornando-se sujeitos construtores de conhecimento da nossa história foi uma tarefa mais difícil do que parecia. A princípio tive a percepção de que apesar de universitária eu continuei sendo vista como objeto de estudos acadêmicos, durante esse tempo que vivenciei a universidade, dei muitas entrevistas.

Na minha primeira experiência acadêmica na universidade, uma pesquisa de iniciação científica (2005-2006), sobre a Identidade Negra e o Jongo[1], foi o momento em que eu comecei a buscar um maior número de informações sobre a discussão da denominada “voz subalterna”, e o meu maior conforto foi encontrado nos escritos de intelectuais negros. Essa iniciativa surgiu, pelo fato do orientador dessa pesquisa colocar alguns desafios que em algum momento da minha vida acadêmica eu teria que passar. O primeiro desafio surge quando este orientador, em uma conversa sobre o início das pesquisas, levanta o seguinte argumento: “Eu te escolhi como orientanda pelo fato de você ser negra, o que facilita a minha entrada em alguns espaços”. Esse comentário foi contra as minhas expectativas, sendo estas, uma jovem mulher negra que esta na universidade e que tem como objetivo estudar temáticas raciais, no que tange a identidade, e se tornar uma pesquisadora. Diante dessa situação surge um confronto: ao mesmo tempo em que eu quero ser uma pesquisadora, continuo sendo vista como objeto estratégico de uma pesquisa, uma ferramenta metodológica da mesma.



No decorrer dessa pesquisa consegui mostrar que o meu papel não era o de abrir caminhos (ou não foi somente esse), e sim um papel construtor de conhecimento. Aprofundei meus conhecimentos teóricos e argumentativos, o que gerou muitas discussões construtivas entre eu e o meu orientador.

Outro desafio colocado foi a questão da neutralidade, muitas vezes era questionada sobre a problemática do meu envolvimento com o objeto, pelo fato de ser negra. Como o negro pode falar do próprio negro sem ter um discurso comprometido? A neutralidade realmente existe? Como eu posso me inserir como pesquisadora dentro de um fenômeno do qual eu faço parte? Essa foram as questões levantadas e que eu vou tentar responder nesse capítulo.

1.1

A autoridade etnográfica e a crítica da antropologia pós-moderna



A antropologia moderna (B. Malinowski, L. Strauss, E. Pritchard, R. Brown, entre outros) caracteriza-se por uma autoridade etnográfica que vem sendo muito criticada pela antropologia pós-moderna. José Jorge Carvalho (2001) argumenta que os antropólogos modernos não levavam em consideração o olhar do “primitivo”, do “objeto”, julgando-o como incapaz de olhar sobre si mesmo e sobre o seu entorno, que teria um olhar “natural”, imediato, direto, irreflexivo, sendo sua hermenêutica definidamente limitada, e o “civilizado”, teórico, tinha o seu próprio horizonte interpretativo como um movimento racional de expansão infinita.

Carvalho(2001) cita Derrida (1971) para afirmar que:

A etnologia é etnocêntrica apesar de combater o etnocentrismo, porque o Ocidente, ao mesmo tempo que praticou o descentramento, construiu sua imagem diante do resto do mundo como sendo a única cultura capaz de realizar tal movimento de abertura e auto-desdobramento.(CARVALHO, 2001, p.110).

A antropologia moderna inaugurada em 1922, com “Os Argonautas do Pacifico Ocidental” de Bronislaw Malinowski, marca um estilo de se fazer antropologia onde o antropólogo na relação com a outra cultura é o sujeito privilegiado, que constrói uma leitura do grupo estudado em sua totalidade. A partir dos anos 70, surge a antropologia hermenêutica proposta por Clifford Geertz, que tem como objetivo a interpretação densa dos significados públicos de uma determinada cultura. Geertz (1989) analisa cultura como um conjunto de ações que são produzidas, percebidas e interpretadas, a qual cabe ao antropólogo interpretar esse mundo simbólico a partir do nativo. Apresentando a etnografia como uma descrição densa, a cultura deve ser lidas como textos culturais.

Fazer etnografia é como tentar ler um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escritos não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado. (GEERTZ, 1989, p. 20).

A cultura é o comportamento humano visto como uma ação simbólica, e Geertz defende que devemos buscar entender o que esta sendo transmitido através das ações, e esse entendimento não é descritivo, ele é interpretativo.

Geertz (1989) faz uma crítica à antropologia moderna, inaugurando uma antropologia dos textos etnográficos. Essa crítica parte da idéia de que o antropólogo ao estudar uma prática de um grupo social estaria dando conta de explicar totalidade desta cultura, que segundo ele seria uma ilusão de uma sociedade que a etnografia passa. A idéia de ilusão é basicamente o consenso de que o antropólogo seria o único sujeito capaz de estabelecer uma ponte entre as culturas, ou seja, ele constrói uma autoridade etnográfica que se legitima pelo fato de ter “estado lá”, o “being there”, onde este último seria o único fator que legitimasse a sua escrita etnográfica, sem levar em consideração a forma que o autor se insere no campo até produzir seu texto.

Os anos 80 é outro momento marcante da antropologia, onde surge à crítica dos pós-modernos em relação a autoridade etnográfica, que implica na relação privilegiada do autor, que olha o mundo todo do ponto de vista desse lugar, pretensamente seguro, de verdade. A “meta-antropologia” (PEIRANO, 1988), ou seja, uma discussão que toma como seu objeto os textos antropológicos, caracteriza-se pela crítica das etnografias modernas (inaugurada por Geertz), buscando uma nova forma de fazer antropologia onde o pesquisador deixa de ser o único sujeito privilegiado, levando em consideração o campo de relação entre o antropólogo e os sujeitos estudados. A proposta dessa nova escola é o respeito à diversidade, onde o antropólogo não é o único sujeito, mas uma entre as diversas vozes, que negocia a informação e da voz aos outros que pertencem à sociedade estudada.

No Brasil a discussão que se iniciou com o questionamento do autor, da sua autoridade etnográfica inconteste, se deslocou para a discussão de como o etnógrafo incorpora sua biografia no texto etnográfico e na sua interpretação, ou seja, a discussão deixou de ser epistemológica e reflexiva, para se tornar subjetiva, dos critérios empíricos da verdade para critérios de envolvimento pessoal.

“O que se incorporou foi muito mais uma espécie de empatia com o nativo, os etnógrafos se colocando subjetivamente na sua pesquisa de campo, mas sempre aspirando preservar para si o lugar de autor seguro e inconteste”.(CARVALHO, 2001, p. 114).

Com a politização da antropologia a partir das lutas anti-imperialistas e pós-coloniais, considerasse que o “nativo constrói sua própria alteridade segundo o modo em que retruca, de um lugar subalterno, o olhar do colonizador sobre si”.(CARVALHO, 2001, p. 128).

Para Arivaldo Alves (2001) a teoria crítica ao invés de deixar o “subalterno” falar, traduz sua experiência vivenciada no encontro etnográfico, dentro desse contexto, podemos falar do intelectual negro que silencia seu olhar na pesquisa que realiza sobre as relações raciais e coloca a voz do outro na discussão.

O projeto fundamental dos teóricos pós-coloniais latino-americanos era a tarefa de descolonização, mas com o crescimento da absorção do olhar universalizante da antropologia européia e recentemente a norte-americana, esse projeto foi deixado de lado. Carvalho (2001) reintroduz esse desafio, defendendo que o ponto central que esta por trás do olhar colonial é lutar por um “deslocamento do lócus de enunciação, do Primeiro para o Terceiro Mundo”. Não seria apenas devolver o olhar (solução colocada pelos que defendem o repensar das etnografias), mas mudar a origem do olhar, criando uma hermenêutica pluritópica, ou seja, que represente todas as vozes.

1.2

NOVOS PRODUTORES DE CONHECIMENTO: O “OBJETO” QUE VIRA SUJEITO

Para Alves, se o pesquisador não consegue fugir do sistema acadêmico dominante, não pode esquecer que seu trabalho não é mais acadêmico que político.

“Imerso num sistema simbólico onde não tem plena autonomia para representar a si mesmo, deve buscar não apenas sua constituição como cientista superior, mas o compromisso e a afirmação de verdades que nunca deixam de ser imparciais”. (ALVES, 2001, p. 312) Como eu, mulher, jovem e negra costumadamente tida como “objeto de pesquisa” posso realizar um estudo? É preciso repensar a autoridade etnográfica construída pelo homem branco europeu, uma discussão trazida pelos pós-modernos da antropologia, mas que ainda limita quem sempre foi considerado “nativo”.

É impossível trazer essa discussão sem entrar nas relações de poder presente nos modelos metodológicos das ciências sociais. Durante muito tempo não se pensou na possibilidade do tradicional “objeto” de pesquisa se tornar sujeito produtor de conhecimento, e esse tratado “objeto” é o mesmo que vem sendo subordinado nas relações sociais fora dela.

Um momento importante para essa discussão, foi o Seminário ocorrido na Universidade de São Paulo, em 1994, “Antropologia e seus espelhos: a etnografia vista pelos observados”. Este seminário foi idealizado por alunos do programa de pós-graduação em Antropologia Social da USP, onde participaram antropólogos, pesquisadores, e os chamados “objetos” tradicionais das pesquisas antropológicas: índios, feministas, negros, operários entre outros. Este seminário foi dividido em três partes e acabou virando um livro. A primeira parte “Etnografia: Identidades Reflexivas”, aborda a questão de pessoas que já foram objetos de pesquisa antropológica, e que tiveram a oportunidade de avaliar a maneira como essa pesquisa interfere na sua vida, e o retorno do trabalho sobre o seu grupo. A segunda parte “Quando o objeto vira sujeito”, trata da experiência de pesquisadores que realizaram trabalhos sobre o grupo do qual fazem parte. A terceira e última parte “A sedução do objeto”, trabalha com os pesquisadores que foram seduzidos pelos seus objetos e acabaram aderindo a prática que estudaram. De todas essas discussões a que mais me importa nesse momento é a segunda, pelo fato de se tratar da discussão que proponho neste capítulo.

Todo mundo é nativo, eu como negra, sou nativa de uma pesquisa, posso estudar o movimento operário, por exemplo, e o operário pode estudar o movimento negro. O acadêmico também é um nativo, a sua identidade pode ser instrumento empírico de alguma pesquisa.

Lévi Strauss quando opinou sobre a imigração na França, colocando sua posição temente à ameaça à cultura e a identidade nacional francesa, passa de etnógrafo a “nativo”, e acaba abrindo espaço para aquele que era considerado “nativo” possa mudar de posição ao construir um olhar sobre ele no seu posicionamento enquanto cidadão francês (CARVALHO, 2001).

A antropologia das sociedades complexas remete ao ambiente urbano, onde os pesquisadores convivem em uma mesma sociedade que os sujeitos estudados. Hoje a antropologia trabalha em um campo que é denominado por Peirano (1999) de “alteridade mínima”, ou seja, quando os sujeitos estudados fazem parte do mesmo campo que o pesquisador. Essa relação exige um certo distanciamento do etnógrafo, como já foi citado acima: “tornar o exótico familiar”, o que antes (período em que os antropólogos se deslocavam de seu país para estudar grupos distantes) seria o inverso “tornar familiar o que é exótico”, exercício que nem sempre acontecia, e muitas vezes os sujeitos estudados eram lidos a partir da visão de mundo dos etnógrafos. Podemos observar que pode haver um deslize no trabalho etnográfico de ambas as partes, do próximo e do distante.

A problemática assumida pela antropologia das sociedade complexas em termos globais precisa ser vista no âmbito do debate sobre a modernidade e a possibilidade desta inversão, o objeto que vira sujeito. (palestrante José Carlos da Silva, in: SILVA; REIS; SILVA, 1994, p. 64)

A discussão levantada neste seminário por José Carlos da Silva (2005) é a seguinte: o “objeto” tem que deixar sua condição de origem quando se coloca no lugar do sujeito? Ele é um operário que estuda o operário, e que no momento da realização deste seminário se coloca como “um antropólogo em construção observando um operário que também esta em construção”, ou seja, “o sujeito se esculpi ao esculpir o objeto”. Ele afirma também que os conceitos aprisionam tanto o “objeto” como o sujeito, pois na tentativa de tentar reinventar e construir o objeto, este corporativismo teórico, ou seja, conceitos aos quais somos obrigados a nos prender, acabam aprisionando e congelando não só o objeto, mas também o sujeito. Silva (2005) aponta como alternativa o que vem desenvolvendo em seu trabalho, que é o resgate da dinâmica da reinvenção, onde olha-se o objeto não pela ótica tradicional das ciências sociais, mas por uma ótica que resgate coisas que têm vivenciado no seu dia a dia, ponto também abordado pelos outros dois expositores, Daniel Monteiro e Ismael Giroto.

Paula Monteiro, orientadora do expositor José Carlos, fazendo parte do publico dessa discussão, realiza uma crítica sobre a noção de objeto utilizada pela antropologia. Segundo Paula Monteiro os grupos sociais não são objetos, ou seja, as mulheres, os operários, os índios não são objetos, mas compõem o grupo empírico pelo qual nós buscamos responder os problemas levantados em nossos trabalhos. Os objetos da antropologia são os problemas levantados em uma determinada pesquisa, é o objeto teórico epistêmico e não concreto. Utilizando como exemplo este trabalho, o objeto, a problemática levantada, é a negritude dentro do movimento HIP HOP, e o grupo empírico pelo qual busco minhas respostas é a Posse Hausa.

O problema colocado pode ser traduzido na exposição do Daniel Monteiro Costa (índio e antropólogo) neste seminário:

Na academia não é possível ser índio, pois ela exige que ele, o índio, se adapte ao esquema tradicional, mas não abre a possibilidade para que o novo aconteça. ( palestrante Daniel Monteiro, in: SILVA; REIS; SILVA, 1994Silva; Reis; Silva, 1994, p.56).

Em sua exposição sobre a relação sujeito objeto, coloca que a academia prioriza uma racionalidade que faz com que o sujeito análise à distância o objeto, sem participar da vida dos mesmos. A partir disso coloca que é possível que um índio se transforme em antropólogo, mas um antropólogo jamais experimentará o que é ser índio, pois não cabe na racionalidade do pesquisador. Portanto, Daniel Monteiro defende que o modelo metodológico tradicional da antropologia esta ultrapassado.

Na leitura do livro “Antropologia e seus espelhos”, pude perceber o desafio que o campo acadêmico, mais precisamente a antropologia, vem tendo dificuldades de responder. Todos os expositores fazem uma crítica aos modelo tradicional, a racionalidade que esgota o saber nativo, e nos prende a paradigmas tradicionais que dificultam a construção do novo.

Entendo que o processo de mudança é um caminho longo que necessita de muitas experiências e discussões, e estamos no momento de transição, momento em que a dita “voz subalterna” entra no ambiente acadêmico tradicionalmente ocupado pelo homem branco, e trás essas novas frações a serem resolvidas pelos antropólogos.

Os “nativos”, que passaram à condição de produtores de conhecimento desses espaços, trazem uma contribuição nova para a academia, o olhar de quem sempre esteve do outro lado das pesquisas etnográficas.

Segundo Carvalho (1994) o antropólogo é uma “subjetividade rica e tem que se assumir como uma subjetividade em crescimento”.

José Carlos ao dialogar sua identidade militante com sua identidade acadêmica afirma que:

Eu militava no movimento operário antes de fazer antropologia. Agora, para fazer antropologia eu não preciso necessariamente deixar de militar. Tenho que saber organizar meu lugar enquanto antropólogo. (palestrante José Carlos da Silva, IN: SILVA; REIS; SILVA, 1994, p. 86).

Assim como José Carlos, eu me encontro nesse campo entre a militância e a academia, acreditando também que eu não preciso abrir mão de nenhuma dessa opções, tendo ao mesmo tempo que definir o meu lugar enquanto antropóloga, onde tenho questões a serem respondidas, e que trazem um novo olhar antropológico sobre o fenômeno do qual eu faço parte.

A ciência foi pensada através dos paradigmas ocidentais, e como nos coloca João Arriscado Nunes (2005), a teoria e o ato de teorizar são indissociáveis do olhar, “apropriativo e dominador”. A teoria vem explicitando as relações de dominação na sociedade, “estabeleceu como seu horizonte a ambição de um conhecimento que permitisse uma intervenção normalizadora baseada na regulação e legislação do mundo estrutural e social”(NUNES, 2005). Portanto podemos afirmar que no modelo ocidental de “paradigma visual” “a capacidade de ver se confunde com a cognição”, esse modelo une a visão à percepção e representação da realidade, inscrevendo a cultura de modo desterritorializado, deslocalizado e desincorporado.



A sociedade vive hoje processos contraditórios, em constante dinâmica, e os movimentos de globalização “contra-hegemônica” vêm mostrando suas forças e reafirmando as diferenças, como movimento de mulheres, sindicatos, movimento negro, homossexuais, através de organizações e lutas pela emancipação e aceitação das diferenças, pelas quais trazem como desafio para a teoria a formulação de novos paradigmas para se pensar a atualidade. Portanto, Nunes (2005) defende que a teoria deve ser pensada também como o campo onde se expressam as tensões entre os grupos sociais, os processos hegemônicos e contra-hegemônicos, a globalização e a localização, que são aspectos que marcam a mudança de paradigmas epistemológicos.

As Ciências Sociais tem que articular formas de experiência, de conhecimento e de racionalidade “que não cingem a racionalidade cognitivo-instrumental e que são situados e localizados, mas renunciando, ao mesmo tempo, a ambição panóptica do cientista social-rei” (NUNES, 2005), interagindo com o espaço social e buscando um envolvimento com a coletividade, como os novos movimentos sociais. Esse contato, segundo o autor, propiciará a construção de uma teoria crítica inovadora.

Nunes (2005) afirma que a estetização da teoria social vem ganhando expressão e reconhecimento por conta da necessidade de uma nova compreensão do mundo, causada pela dinâmica da globalização e pela transição pós-moderna. Desta forma tornou-se possível encontrar a teoria em lugares que ela parecia ausente e trazer para a discussão lugares e temas que estavam a margem da teoria, incluindo uma diversidade de formas de expressão cultural oriundas das margens da cultura hegemônica, tanto nas sociedade centrais como nas sociedade semi-periféricas e periféricas. Esse processo coloca uma diversidade de linguagens que antes estavam a margem da discussão teórica para o seu centro.

A diversidade presente entre os grupos sociais e suas formas de representação geram uma dinâmica social que podem “ser apropriados para uma renovação do saber científico-social mais sensível aos aspectos metafóricos e narrativos da teorização” (NUNES, 2005). Por muito tempo a teoria moderna minimizou esses aspectos da diversidade, diferença, e reduziu-os “ao que podia ser dito através dos discursos críticos ou acadêmicos dominantes” (NUNES, 2005). Segundo o autor ignorar esses temas é silenciar aspectos importantes para o conhecimento da cultura e da sociedade, além de não explicitar as relações de poder, opressão e exclusão que não podem ser ditas pelo conhecimento fundador da teoria convencional.

No decorrer do ultimo século a antropologia começa a repensar o seu modelo metodológico, pois, nas relações sociais da qual ela também é reflexo, institui-se uma ordem ocidental que coloca o olhar do homem branco como privilegiado.

A realidade de hoje inibe a construção de novos modelos metodológicos para a etnografia. O olhar antropológico significa a transformação do próprio pesquisador em ambos sentidos, ou seja, “tornar exótico o que é familiar e tornar familiar o que é exótico” (Peirano, 1999).

Para José G. C. Magnani (2002) o procedimento da antropologia clássica de olhar de longe e de fora não é apropriado para se entender a dinâmica da cidade, portanto, propõe um olhar de perto e de dentro para uma antropologia das sociedades complexas, o ambiente urbano.

O estudo das relações macro dentro do espaço urbano deixa de perceber um conjunto de outras relações que são essenciais para a antropologia, pois, dentro da discussão mais ampla de sociedade temos sujeitos concretos, específicos que se organizam. Na cidade é difícil perceber e ter consciência de que o exótico esta na nossa frente, a diversidade que povoa a cidade no nosso nariz. Magnani trabalha como se conjuga a macro realidade com a micro realidade. As análises macro provocam um desaparecimento dos atores sociais concretos, e o autor, o objeto da antropologia é o micro, entender essas especificidades, trabalhar do ponto de vista da micro realidade, focar o sujeito social para contemplar a diversidade existente dentro da macro realidade. Magnani crítica a idéia de neutralidade e afirma que é uma armadilha metodológica achar que só porque se vive no mesmo espaço dos sujeitos estudados também se tem o mesmo sentimento cognitivo.

Segundo Geertz (1997), ninguém sabe melhor o que estão fazendo os nativos além deles mesmos. O etnógrafo segundo ele não percebe, ou não é capaz de perceber o que seus informantes percebem, portanto ele propõe que o mesmo coloque-se “embaixo da pele do outro”, ou seja, “ver as coisas do ponto de vista dos nativos”. Para Geertz o etnógrafo percebe “com que, ou por meio de que, ou através de que os outros percebem”.

Em país de cegos, que, por sinal, são mais observadores que parecem, quem tem olho não é rei, é um espectador. (GEERTZ, 1997, p. 89).

É preciso segundo Geertz entender a concepção do “eu”, do nativo, e não julgá-lo a partir da nossa concepção. Se o etnógrafo tem que buscar o ponto de vista do nativo para entender a dimensão simbólica de uma cultura, qual seria o problema desse nativo falar sobre si mesmo?

A voz “subalterna” tem legitimidade para falar assim como tantas outras vozes, pois todos nós podemos ser nativos, somos diferentes culturalmente, e o saber não esta lá e nem cá, mas no trabalho que o etnógrafo exerce a partir das questões levantadas e dos seus métodos antropológicos, e na vivência dos nativos onde ele busca responder suas questões. Os conceitos podem ser reinventados e levar a uma nova concepção dos sujeitos estudados. A visão tradicional pode servir de instrumento para construir as novas idéias, pois para se construir o novo é preciso conhecer o velho, e as Ciências Sociais hegemônica tem que ser revista para se pensar a contra-hegemônica. A ciência contra-hegemônica escolhe temas não consagrados pela ciência hegemônica, o que exige novas formas de se fazer pesquisa na academia.

Em tão pouco tempo de vivência acadêmica é difícil responder a questão levantada neste capítulo, principalmente porque é um desafio ainda não resolvido pela antropologia. As contribuições que posso dar a essa discussão enquanto jovem, negra e HIP HOPPER, que estuda a juventude negra no movimento HIP HOP é, através desse trabalho de conclusão de curso, a afirmação de que o fato de estarmos pesquisando algo do qual nós fazemos parte não compromete nosso trabalho. O distanciamento exigido a nós se contrapõe à aproximação exigida àqueles que estão de fora. Teóricos como Kabengele Munanga, Carlos Moore, Clóvis Moura, bell hooks, Cheikh Anta Diop, Bantu Steve Biko, Valter Silvério, Osmundo Pinho, Lélia Gonzalez, Petronilha Gonçalves, como tantos outros, estudaram questões relacionadas a negritude, e, apesar dos desafios colocados a eles pela ciência hegemônica, conseguiram construir um saber fundamental para a discussão “racial” na academia brasileira.

O olhar tradicional voltado a nós, como “objetos”, coloca certas dificuldades quando nos pensamos enquanto acadêmicos. A principal arma nesse processo é o conhecimento dos paradigmas tradicionais para a construção da legitimidade do novo olhar antropológico. Além de estar atenta para os deslizes que podem ocorrer no que se refere ao envolvimento com o campo de estudo, é preciso saber manobrar o conflito existente entre nós e aqueles que nos pesquisam. A partir do trabalho dos mesmos poderíamos construir uma etnografia e devolver o olhar que sempre construíram sobre nós, olhar os tradicionais como nativos. Pois todos somos nativos, somos diferentes, e essas diferenças também são problemas a serem pesquisados pela antropologia.

CAPÍTULO II

ESCRAVIDÃO: RE-SIGNIFICANDO AS CULTURAS DOS AFRICANOS NA TRAVESSIA DO ATLÂNTICO.
2.

Baseados na idéia de “raça”, povos europeus legitimaram seu “direito” de escravizar outros povos que consideravam inferiores. Pautados na ideologia de superioridade racial, que aborda a história como um processo evolutivo, construíram um olhar etnocêntrico sobre os grupos étnicos fora do ocidente. As formas de organização política e social de outros povos eram julgadas a partir da visão de mundo européia, esta tomada como referência, e quando eram distantes desse padrão foram condenadas a idéia de “povos atrasados”. Durante muito tempo, essa ideologia buscou fundamentos na “produção científica antropologica”, primeiro com o evolucionismo social (Séc. XV), onde os povos não-ocidentais não eram considerados humanos, mas animais, e depois com o evolucionismo científico (Séc. XIX), onde os não-ocidentais deixam de ser vistos como animais e passam a integrar a escala de evolução dos humanos, como os mais atrasados, que para saírem da barbárie deveriam ser tutelados pelos europeus, “os percussores do progresso de da civilização”.

Lévi Strauss, em “O Pensamento Selvagem” (1962), abre um caminho diferente para uma reflexão histórica, se afastando das armadilhas desse evolucionismo e das ideologias celebratórias. Lévi Strauss crítica a forma como a cultura ocidental é tomada como referência para se pensar as culturas humanas. A partir de uma análise do pensamento selvagem, ele nos mostra que o mesmo é tão lógico quanto o europeu, pois a sua maneira cria formas de organização social tão complexas quanto a ocidental, trazendo à tona que a dimensão da filosofia não é uma exclusividade do ocidente. O pensamento selvagem é a maneira que o homem pensa e traduz suas relações sociais, e nada tem de pré-lógico; é lógico no mesmo sentido e maneira que o europeu, mas construído por um caminho diferente, o caminho da sua realidade cultural.

A idéia de raça foi criada para legitimar o poder de dominação e subordinação de uns povos sobre outros. Marcado por um sistema escravista negro, o Brasil, assim com outros países da América, recebeu muitos africanos para trabalharem a serviço dos europeus.

Quando os europeus chegaram ao continente africano no século XV, os africanos tinham um sistema político bem organizado, existindo monarquias constituídas por um conselho popular onde as diferentes camadas sociais eram representadas. Havia nas diversas comunidades africanas relações comerciais, econômicas, políticas, além de agricultura desenvolvida, técnicas médicas, metalurgia, e tantos outros conhecimentos que contribuíram para a sociedade mundial. No entanto, os africanos não possuíam tecnologia de combate, guerra, proteção.

(...) o desenvolvimento técnico, incluindo a tecnologia de guerra, era menos acentuada, isso pode ser explicado pelas condições ecológicas, sócio-econômicas e históricas da África daquela época, e não biologicamente, como queriam alguns falsos cientistas. (MUNANGA, 1986, p. 8).

Com o “descobrimento” da América no séc. XVI, surge a demanda de mão de obra barata, e o fato do continente africano ter um sistema de guerra menos desenvolvido que o europeu o torna um “reservatório humano apropriado” para a escravidão, e inicia-se o tráfico negreiro.

Sustentando a idéia de “superioridade racial”, os europeus diziam que os negros não eram seres humanos e que deveriam ser escravizados. Além da legitimação científica para o escravismo, uma passagem bíblica, em primeiro momento, fundamentou o mesmo. Munanga (2002) nos aponta duas origens do racismo:

A primeira origem do racismo deriva do mito bíblico de Noé do qual resulta a primeira classificação religiosa da diversidade humana entre os três filhos de Noé, ancestrais de três raças: Jafé (ancestral da raça branca), Sem (ancestral da raça amarela) e Cam (ancestral da raça negra). Segundo o nono capítulo de Gênese, o patriarca Noé, depois de conduzir por muito tempo a arca nas águas do dilúvio, encontrou finalmente um oásis. Estendeu sua tenda para descansar, com seus três filhos. Depois de tomar algumas taças de vinho, Noé deitou-se numa posição indecente. Cam, ao encontrar seu pai naquela postura, fez, junto aos seus irmãos Jafé e Sem, comentários desrespeitosos sobre o pai. Foi assim que Noé, ao ser informado pelos dois filhos descontentes da risada não lisonjeira de Cam, amaldiçoou esse último, dizendo: seus filhos serão os últimos a serem escravizados pelos filhos de seus irmãos. Os calvinistas baseiam-se nesse mito para justificar e legitimar o racismo antinegro. A segunda origem do racismo tem uma história conhecida e inventariada, ligada a modernismo ocidental. Ela se origina na classificação dita científica derivada da observação dos caracteres físicos (cor da pele, traços morfológicos). Os caracteres físicos foram considerados irreversíveis na sua influência sobre os comportamentos dos povos. Essa mudança de perspectiva foi considerada como um salto ideológico importante na construção da ideologia racista, pois se passou de um tipo de explicação na qual Deus e o livre arbítrio constituem o eixo central da divisão da história humana, para um novo tipo, no qual a biologia (sob sua forma simbólica) se erige em determinismo racial e se torna a chave humana. (MUNANGA, 2002, p. 25).

As diversas concepções racialistas são construções sociais, pois nos momentos históricos que buscam referências religiosas ou biológicas, procurava-se legitimidade para escravizar, torturar e matar seres humanos. Os europeus sustentaram o genocídio dos povos africanos por meio do regime escravocrata, acumularam riquezas e, através do trabalho negro, criaram condições para o desenvolvimento capitalista, que continua tendo como uma de suas bases o racismo.

Pautado nessa divisão racial, inicia-se o tráfico negreiro pelos atlânticos, onde os africanos eram levados para países europeus, asiáticos e principalmente americanos. A reação dos povos africanos não foi de passividade, houve resistência à exploração e assimilação cultural a eles impostas.

A escravidão foi um projeto além da exploração do trabalho humano, buscava afirmar a “superioridade racial branca”, a destruição das identidades culturais dos africanos; os europeus ao escravizá-los proibiam suas línguas, religiões e diversas práticas culturais. Para escravizar os negros sem que haja resistência, primeiro era preciso que eles interiorizassem a idéia de inferioridade racial colocada pelo europeu, mas a dinâmica presente na escravidão onde os negros lutaram pela sua liberdade impediu a completa assimilação (MUNANGA, 2005).

Com a travessia forçada pelo Atlântico, o projeto racista que tinha como objetivo eliminar a identidade do africano é desafiado por aquilo que Paul Gilroy (2001) chama de contra-cultura da modernidade ocidental, iniciada e reproduzida pelos escravos e seus descendentes decepcionados que criaram mecanismos de preservação da sua cultura, recusando-se e resistindo à assimilação cultural imposta pelo europeu. O “sublime escravo”[2] busca meios de reinventar sua cultura a partir da diáspora africana para o “Novo Mundo”, o que Gilroy (2001) chama de “Atlântico Negro”. O conceito de diáspora muda a noção de espaço, pois o distanciamento da terra natal gerou movimentos de resistência que não estão ligados ao solo para existir, mas à formação de um circuito comunicativo que estabeleceu diálogo entre essas populações vítimas da separação forçosa, permitindo que as mesmas dispersas pelo Novo Mundo pudessem interagir, conversar e, nos dias de hoje, “sincronizar significativos elementos de suas vidas culturais e sociais”. Gilroy fala da cultura do Atlântico Negro como uma reconceitualização do sentimento de sua desterritorialização.

As culturas do atlântico negro criaram veículos de consolação através da mediação do sofrimento. Elas especificam formas estéticas e contra-estéticas e uma distinta dramaturgia da recordação que caracteristicamente separam a genealogia da geografia, e o ato de lidar com o pertencer. (GILROY, 2001, p.13).

A formação dessa contracultura da modernidade ocidental nos remete a uma abordagem cosmopolita de cultura, pois a mesma vai além das terras onde tem suas raízes, e esta em movimento, “cruza o oceano fazendo surgir culturas planetárias mais fluídas e menos fixas”. (GILROY, 2001, p.15).

Como alternativa à metafísica da ‘raça’, da nação e de uma cultura territorial fechada, codificada no corpo, a diáspora é um conceito que ativamente perturba a mecânica cultural e histórica do pertencimento. Uma vez que a simples seqüência dos laços explicativos entre lugar, posição e consciência é rompida, o poder fundamental do território para determinar a identidade pode também ser rompido. (GILROY, 2001, p.18).

Quando um povo é desligado de sua localidade, espaço que também constituí sua identidade, e continua a preservar seus valores culturais mesmo em contato com o novo, com o diferente, reinventando-os, negando assim as concepções e fixidez, é levantada a necessidade de se repensar o conceito de cultura. Marshall Sahlins(1997) defende que a cultura é “a organização da experiência e das ações humanas por meios simbólicos” (SAHLINS, 1997, p. 41). Existe um desvio substancialista do uso do conceito de cultura, ou seja, uma redução de cultura à materialidade. Para o autor, a cultura está presente na vida do ser humano, a capacidade de se organizar simbolicamente é universal, mas as categorias são diferentes; a cultura é uma organização social, política, econômica, de parentesco, mitologia, linguagem e etc. Denominar cultura como cultura do/de algo, como o exemplo dos skatistas, é o mesmo que reduzir cultura à matéria.

Exatamente por não ser matéria a cultura não morre, e Sahlins afirma que ao entrar em contato com novos fenômenos ela interpreta os mesmos de acordo com a sua realidade. Assim, ela está sempre se renovando, e esse contato ao invés de enfraquecê-la, ajuda a fortalecer seu modo de vida. O objeto não carrega o seu significado nele mesmo, esse significado está presente na interiorização do indivíduo, no significado cultural adquirido por ele, e quando um grupo tem contato com objeto ele não vai interiorizar o sentido desse objeto dado por outro grupo, ele vai resignificá-lo através da sua cultura. O arco e flexa que é utilizado como objeto de caça para um grupo pode ser utilizado como enfeite para outro.

A hegemonia global do ocidente e a grande narrativa do capitalismo fazem com que alguns antropólogos acreditem que a cultura é algo que tende a se homogeneizar e se transformar em algo global. Mas segundo Sahlins, “a consciência e a capacidade dos povos vitimados de forjar significados permanece intacta, o industrialismo não consegue forçá-los a internalizar seus próprios pressupostos sobre a natureza humana”.

Sahlins afirma que há ao mesmo tempo o desenvolvimento de uma integração global e de uma diferenciação local, e “existem sempre tendências operando em direções contrárias”. “Justamente por participarem de um processo global de aculturação, os povos locais continuam a se distinguir entre si pelos modos específicos como o fazem”. Assim o contato com o fenômeno mundial fez com que a cultura assumisse uma variedade de novas configurações. Como Sahlins apresenta: “os bens europeus não tornam simplesmente as pessoas mais semelhantes a nós, e sim mais semelhantes a elas próprias”.

Para Sahlins um grupo tem a sua própria forma de classificar, ordenar e atribuir utilidades a um objeto desconhecido. O mercado é adequado à realidade local, o costume atribui sentido ao objeto, pois o objeto é só algo material que pode receber sentidos diferenciados. Por isso, ele põe em dúvida a questão da aculturação.

Se a cultura fosse matéria, os africanos teriam deixado no continente africano todas as suas identidades a partir do momento em que atravessaram o Atlântico, mas diferente disto, como cultura se configura como uma expressão simbólica construída coletivamente entre grupos sociais, vivemos hoje sobre a influência de diversos valores tradicionais africanos. O Atlântico Negro de Paul Gilroy expressa aquilo que Marshall Sahlins denomina de fenômeno de florescimento ou intensificação cultural, a forma como os grupos africanos usaram do processo árduo da escravidão para fortalecer suas ações tradicionais no novo mundo. Assim, a força que o sistema mundial tenta exercer sobre a cultura, como forma de destitui-la, faz com que ela tome novos rumos e resista, reapareça em forma de contracultura ou espírito de rebelião, pois ela não morre, não é material, está na mente, é símbolo.

2.1
Racismo e modernidade

A idéia de modernidade é caracterizada pela razão e pela liberdade, mas as re-estruturações contemporâneas das relações políticas e econômicas nos países superdesenvolvidos colocam em questão essa suposição histórica do racionalismo ocidental.

Essas características da modernidade são colocadas em questão quando são pensados os encontros brutais dos ocidentais com as populações que “conquistaram”. A idéia de igualdade e liberdade do Iluminismo não contemplava grupos historicamente marginalizados, como os grupos étnicos que continuaram a ser subordinados, e as mulheres oprimidas pelo machismo. O que pode ser visto como racional em uma sociedade que enfatiza a noção de raça cientificamente para justificar sua dominação sobre outros povos?

Pensar a periodização do moderno e do pós-moderno é fundamental para entender a história dos negros no Ocidente, as relações de subordinação e de dominação entre europeus e o resto do mundo; para compreender a noção de raça que fundamenta a ideologia racista; para entender as origens e evolução da política negra.

Uma boa abordagem sobre a modernidade deve levar em consideração como os movimentos de luta dos povos escravizados utilizaram-se de conceitos da era da revolução ocidental que desaguaram em movimentos sociais anticoloniais e anticapitalistas.

A alta idade moderna esconde as relações de subordinação social e política dos negros e outros povos não-europeus, e o que aparece nos debates filosóficos, políticos e culturais é a idéia inocente de uma modernidade de relações sociais aparentemente felizes.

No processo de re-significação das culturas africanas no Novo Mundo, as mesmas sofrem transformações. Sofrem influência da política e das letras ocidentais, formando a política negra moderna que está ao mesmo tempo dentro e fora da cultura ocidental.

Gilroy (2001) critica a visão sobre a modernidade que destaca somente seus aspectos positivos, sem levar em consideração e realizar uma crítica sobre os males ocorridos nela, como a colonialismo-escravidão, racismo científico e machismo.

O discurso racionalista eurocêntrico despreza o debate sobre a experiência escrava e suas narrativas sobre a modernidade. As populações negras fazem um uso criativo e comunicativo da memória da escravidão, que tem contribuído para uma reflexão crítica sobre a modernidade.

Gilroy propõe reconstruir a história da modernidade do ponto de vista dos escravizados, que podem trazer uma visão clara não só da dinâmica do poder e dominação na escravidão, como as questões do etnocentrismo, a formação do discurso racial e o desenvolvimento de uma política racial. O discurso dos escravizados constrói uma perspectiva crítica sobre o humanismo burguês que deu origem ao racismo científico. A crítica do escravizado aponta que os avanços da modernidade são pseudo-avanços dependentes do grupo racialmente dominante, e por isso a crítica à modernidade não pode partir daqueles que seguem a lógica que a criou.

As expressões culturais eram oferecidas aos escravos como um substituto para as liberdades políticas formais que lhes eram negadas no regime da escravidão, e até os dias de hoje continuam a preservar em forma de arte seus desejos que vão além das coisas materiais, e por isso negam o Iluminismo que separa a arte da vida, a cultura negra reitera essa relação entre a arte e a vida. Essas manifestações contemplam a subjetividade dos negros na luta pela emancipação, cidadania e autonomia.

A arte negra surge no Ocidente no momento em que a modernidade tem como referência a idéia de “raça” para legitimar a opressão. Busca autonomia em relação ao moderno a partir da experiência de opressão racial que eles criticam.

2.2
Da escravidão ao movimento da negritude no Brasil

O tráfico negreiro, movimento que tirou milhões de africanos de suas terras para trabalharem como escravos nas Américas, é considerado um dos maiores crimes contra a humanidade.

Muitos buscam como justificativa que alivie o peso da tragédia provocada pelos europeus a idéia de que já existia escravidão entre os negros no continente africano antes do homem branco chegar lá. Segunda Munanga (2006), o conceito de escravo utilizado no contexto africano é diferente da idéia de escravo construída no Brasil; na África tradicional, escravo significa toda a relação de sujeição de um indivíduo, que pode ser familiar, de pai para filho, de mulher para homem, ou na guerra entre sociedades inimigas, onde o vencedor poderia tomar conta do território do adversário, mas não roubar a sua humanidade. No ocidente, escravo é aquele povo que é mercadoria e proporciona acumulação de riqueza para quem escraviza. Não pode se justificar o regime escravista europeu pelo fato de existirem sistemas de sujeição no continente africano, pois são valores distintos, e tirar o ser humano de sua condição de dignidade colocando-o como inferior, mercadoria, subordinado a outros iguais não é um erro compreensível.

O colonizador, ao chegar no Brasil, afirma que encontrou uma população indígena acostumado com a liberdade e que não aceitava trabalhar como escrava, motivo pelo qual foram buscar mão de obra no continente africano, afirmando que os negros já eram acostumados com a escravidão existente em suas terras e em suas culturas e não tinham perspectivas futuras.

Apesar de todos os problemas enfrentados pelos africanos na travessia do atlântico, eles conseguiram trazer diversas contribuições de seu continente para a América, contribuições essas culturais, econômicas, demográficas, científicas e etc. (MUNANGA, 2006). A sociedade convive diariamente com práticas características da cultura africana, às vezes reinventadas e reinterpretadas nas Américas, mas ligadas à tradição trazida pelos negros da diáspora.

(...) A arte se tornou a espinha dorsal das culturas políticas dos escravos e de sua história cultural. Ela continua a ser o meio pelo qual os militantes culturais ainda hoje se engajam em “resgatar críticas” do presente tanto pela mobilização de recordações do passado como pela invenção de um estado passado imaginário que possa alimentar suas esperanças utópicas. (GILROY, 2001, p. 129-130).

Negros foram sujeitos que estabeleceram a dinâmica na sociedade brasileira, mas ainda aparecem em produções históricas como passivos frente ao sistema escravocrata e ao assimilacionismo.

Na maioria dos estudos sobre as relações raciais no Brasil, “pouca ou nenhuma importância se dá ao papel do escravo como participante do processo contraditório de lutas e reajustes que caracterizou o sistema escravista” (MOURA, 1986). Sendo assim, Clóvis Moura afirma que o escravo não era somente coisa, era ser, e o simples fato de negar-se como escravo, criando movimentos e atitudes de negação ao sistema, colocava-o como participante da dinâmica social, sujeito, atuante e não passivo. “O escravo no Brasil nunca foi elemento passivo como é apresentado” (MOURA, 1986).

É justamente no abandono do trabalho que o escravo dinamiza o sistema e se afirma como sujeito histórico coletivo. (MOURA, 1986, P.10).

Moura (1986) defende que para se resgatar a “dívida que a sociedade brasileira tem para com o negro (ex-escravo), há a necessidade básica de se mostrar, preliminarmente, como ele vivia e reagia à condição de escravo”(MOURA, 1986). O Brasil foi o último país a abolir a escravidão, e isso não foi levado em consideração por muitos estudiosos, pois deram outra ênfase ao sistema escravista que não é o da dinâmica entre senhor e escravo, e sim da atuação do senhor sobre o escravo. Por esse fator, Moura acredita que as nossas correntes de pensamento buscaram uma interpretação diagonal do passado e até hoje sofrem influência do período escravista, ou seja, o pensamento está subordinado à herança da escravidão. Ao deixar de colocar o sistema escravocrata como dinâmico os estudiosos levam a crer que a escravidão não é um processo histórico de contradição, e sim, “uma fase na qual tudo se ajustava através dos referenciais casa-grande e senzala, sendo que esses dois elementos se completavam harmonicamente”.

Com isto a classe senhorial do passado foi transformada em força mantenedora da harmonia social durante o escravismo, e, em continuação, por herança, as classes dominantes atuais procuram, através de um paternalismo de diversos níveis, resolver pacificamente os conflitos que surgem. Assim como durante a escravidão criou-se o mito do “bom senhor”, criou-se, depois, a do “homem cordial” para caracterizar as chamadas elites brasileiras. (MOURA, 1986, p.15).

No processo histórico brasileiro houveram diversas rebeliões nas senzalas, e pouco antes do fim da escravidão boa parcela da população negra no Brasil habitava em quilombos ou já tinham comprado suas alforrias. A abolição não pode ser entendida tão e simplesmente como um fator econômico, mas como consequência de uma realidade que não dava outra alternativa: a população negra lutava pela sua libertação, articulando confrontos com as casas grandes, movimentos republicanistas, quilombos, e outras formas de resistência. O povo negro no Brasil protagonizou a idéia de república, e a primeira experiência de estado livre no Brasil foi o Quilombo dos Palmares. Além disso, organizavam fugas nas senzalas e ataques às casas grandes, com o objetivo de eliminar a opressão e conquistar oficialmente a liberdade (MOURA, 1986). Os movimentos de resistência negra caminhavam para uma possível revolução de independência, processo que foi barrado pela abolição que deixou a população negra na miséria, tornando as senzalas o que são as periferias de hoje.

Acompanhado disso, o sistema escravocrata também passava a ser desmoralizada por ser considerado um empecilho ao desenvolvimento do capitalismo. O trabalho escravo deveria ser transformado em mão de obra livre, pois só assim a força de trabalho ganharia efetiva condição de mercadoria e poderia ser comprada segundo as necessidades do empregador e dos seus empreendimentos econômicos, e quando comprada, custaria os meios de subsistência do trabalhador. As transformações da estrutura econômica influenciou a libertação do escravo, pois o trabalhador só é livre quando é livre de oferecer a sua força de trabalho.

A metamorfose do escravo em trabalhador livre é um fenômeno que se realiza ao nível das relações de produção e no âmbito do sistema cultural. A condição jurídica de cidadão inegavelmente exprime uma modificação fundamental da posição do grupo negro, revelando, em primeiro lugar, uma libertação parcial dos trabalhadores.(IANNI, 1972: 67).

A população negra que já estava conquistando pela luta a sua liberdade através de diversas resistências teve o seu papel redefinido na sociedade após a abolição, pois a mesma continuou sustentando a lógica colonial em que a elite branca compunha o grupo dominante. Essa redefinição transforma o escravizado em trabalhador “livre” e o mesmo continua a ser subordinado pela elite branca brasileira; os quase quatro séculos de exploração e trabalho escravo negro geraram a acumulação de renda da casa grande, e a população negra não foi recompensada, não houve nenhum tipo de indenização em relação aos danos causados a esse grupo racial.

Ianni (1972) afirma que a modificação da condição do negro na sociedade se realiza aos poucos, pois os elementos do sistema cultural elaborado no regime escravocrata continua presente e determinante na vida do negro, e é reelaborado no século XX. A sociedade sucessora à escravocrata é também uma entidade disposta em camadas sociais, e por isso os padrões do regime escravista “puderam ser redefinidos e incorporados de conformidade com o novo contexto”.

Diversos foram os grupos étnicos de africanos escravizados no Brasil. A discussão do conceito diáspora contemporânea, que ganha força após a difusão do movimento black power de forma trans-local, tem reagido à idéia de unanimidade racial, que anula as diferenças étnicas dos negros, e coloca como se todos fossem iguais.

João Batista Borges Pereira (1983) afirma que os milhares de escravizados que foram trazidos para o Brasil vieram de diferentes regiões do continente africano, o que quer dizer que eram portadores de diferentes culturas.

Pereira (1983) aponta que nesse processo ocorreu um afastamento entre cultura e grupo racial. Descreve dois processos de afastamento. O primeiro processo acontece quando os grupos étnicos perdem a identidade a favor de um patrimônio cultural do negro. No jogo de oposição negro-branco, as especificidades culturais ou étnicas perdem sentido na medida em que todas as manifestações da cultura não identificadas ao grupo branco passam a ser julgadas como de negros, sem distinção de eventuais nuanças culturais. A variedade étnica africana no Brasil foi se reduzindo a uma única categoria: negros.

O segundo processo de afastamento é o deslocamento da cultura negra a uma cultura nacional, e refere-se à perda de identidade cultural desse grupo negro genericamente conceituado a favor de uma cultura nacional associada a toda população pluri-racial brasileira, independentemente das múltiplas origens étnicas de um país de imigração.

O segundo processo, diferentemente do primeiro, afeta, sob múltiplos aspectos e de forma direta, grandes parcelas da população negra, sem deixar naturalmente, de se constituir em tema de reflexão dos estudiosos, intelectuais e ideólogos, tanto negros como brancos. (PEREIRA, 1983, p. 96).

Com a desvinculação da cultura em relação ao grupo racial, à cultura negra passa a ser vista como algo presente em todos os espaços da cultura nacional.

O modelo pluri-racial brasileiro funciona como autêntica peneira no processo de integração de negro aos espaços societários, colocando à descoberta mecanismos poderosos e sutis que bloqueiam os negros em seus projetos de participação social, cultural e política. (PEREIRA, 1983, p. 96).

Colocam a cultura negra presente em todos os espaços de cultura brasileira para reforçar a idéia de que no Brasil não há restrições a coisas de negros, argumento que é usado para reforçar o mito da democracia racial.

Em síntese, enquanto o negro continua marginalizado na vida nacional, a cultura a ele identificada goza de certo prestígio, e é esta face do complexo raça-cultura que o discurso ideológico branco exibe para reforçar as suas teses democráticas. (PEREIRA, 1983, p. 96).

Encontram nos elementos culturais negros uma forma de cultivar o esnobismo, que os fazem sentir ora diferentes, ora exóticos, ora muito democráticos em relação aos grupos oprimidos.

A partir disso, a folclorização da cultura que se inicia e é apontada por Pereira como negativa para a imagem do negro, pois ao folclorizar-se a cultura, folcloriza-se o grupo racial, e a folclorização cria uma imagem deletéria do negro, colocando-o como amalandrado, inconseqüente, preguiçoso, exótico e etc., em contrapartida com a imagem do branco racional, operoso. A folclorização também faz com que o outro se aproprie das conquistas históricas do negro.

Condicionado ou não por essa política de exaltação de “coisas exóticas de negro” um número cada vez maior de brancos invade esses redutos negros ocupando os seus espaços físicos e substituindo em muitos casos os negros nos status mais privilegiados dessas organizações. Desta maneira, o negro está sendo paulatinamente marginalizado dentro do seu próprio mundo. (PEREIRA, 1983, p. 99).

Dentro desse processo de apropriação da cultura negra e desvalorização do sujeito social negro, ou seja, o fato da cultura negra ter sido incorporada pela sociedade, e não ter mudado a condição social do negro que continua sendo discriminado, faz com que surja entre os negros a “necessidade de reencontrar ou recuperar sua identidade de grupo diferenciado, que se perdeu historicamente e se perde, a toda hora, nesse emaranhado de raça, cultura e classe” (PEREIRA,1983). Inicia-se, a partir daqui, a construção da identidade política, tendo como base elementos culturais históricas, o que João Batista chama de: “a cultura no discurso e na arregimentação política do negro”. A construção da identidade se faz por via política tendo, porém, como matéria-prima indispensável certa especificidade cultural, seja ela qual for. Reconhece-se também que um projeto político que procura abrigar, sob a mesma bandeira, pensamento e ação, indivíduos dispostos a lutar pelo mesmo objetivo, no caso racial, precisa-se preliminarmente encontrar o cimento cultural que os una moralmente.

A construção dos laços de lealdade entre negros constitui, talvez, um dos maiores desafios para os que se propõem arregimentar politicamente um segmento étnico desunido em quase todos os planos. (PEREIRA, 1983. P. 102).

Portanto, segundo Pereira, a cultura passa a ganhar lugar no discurso político do negro, “que admite ser impossível dissociar arregimentação política de identidade étnica e identidade étnica de cultura”.(PEREIRA, 1983, p. 104).

No espaço reservado ao cultural, recuperam-se heróis negros, como Zumbi; reivindicam-se organizações negras populares, com tradicionais funções lúdicas, para conscientização e arregimentação políticas, como os blocos de carnaval; exaltam-se os padrões de beleza negra; Desestigmatizam-se e estimulam-se estilos negros de vida; atualizam-se as eventuais raízes africanas da cultura negra. (BATISTA, 1983, p. 104).

Cultura e raça são construções que se misturam nas relações sócio-históricas. A identidade associada à cultura é a identidade racial.

2.2.1
A construção da negritude na luta anti-racista

Somos oprimidos, não como indivíduos, não como zulus, xhosas, vendas ou indianos. Somos oprimidos porque somos negros. Precisamos usar esse mesmo conceito para nos unir e para dar uma resposta como um grupo coeso. (STEVE BIKO, 1971, texto impresso sem numeração de página, pertencente a coletânea de textos do livro “Escrevo o que eu quero”).

A partir da abolição, em 1888, a realidade do negro brasileiro partiu das senzalas para os morros, onde se formaram as favelas. Com o fim do ciclo do café e início da industrialização, o governo incentivou a imigração européia substituindo a mão de obra escrava pela mão de obra paga. Os imigrantes europeus recebiam terras, moradias, e mesmo sendo oprimidos pela divisão de classes não foram escravizados, proibidos de ter terras e freqüentar as escolas, recebiam, mesmo que pouco, seus salários. Quando a mão-de-obra passa a ser paga, o negro é descartado enquanto trabalhador, restando-lhe os serviços mais informais, como prestação de serviços, e para as mulheres, o serviço doméstico.

Diante de todas as dificuldades, os negros organizaram-se a partir de diversas entidades negras a nível nacional. Eram essas entidades recreativas, algumas pertencentes a grupos que tinham anseios elitistas, e outras trabalhavam com atividades culturais de massa, características da cultura produzida pelos negros nas Américas (afoxés, escolas de samba, maracatu, etc.).

(...) As entidades culturais de massa têm sido de grande importância na medida em que, ao transarem o cultural, possibilitaram ao mesmo tempo o exercício de uma prática política, preparadora do advento dos movimentos negros de caráter ideológico. (GONZALES, 1982, p. 22).

Esses movimentos utilizavam-se das mais diversas expressões culturais para expressar uma resposta crítica ao sistema de dominação presente na sociedade. A primeira metade do século XX é marcada pela expressividade e surgimentos da imprensa negra, e movimentos culturais negros. Ao mesmo tempo, espalha-se a ideologia de branqueamento e democracia racial. Intelectuais como Nina Rodrigues, Silvio Romero, afirmavam que os negros eram uma “raça” inferior, e temiam ao escurecimento da população brasileira. O Estado, acreditando na “superioridade” da “raça” branca, começou a incentivar a miscigenação, tendo como verdade a idéia de inferioridade de negros, índigenas e mestiços, previa através da mistura racial um embranquecimento da população brasileira . No mesmo período, Gilberto Freyre escreve que o Brasil é uma “Democracia Racial”, onde se dá o encontro harmonioso das “raças”.

O Estado tinha como objetivo construir uma identidade singular, onde prevaleceriam valores europeus como construtores da nação brasileira, e qualquer manifestação de uma identidade externa a nacional representava perigo ao governo, pois eles temiam a movimentos separatistas e rebeliões. O objetivo central era que a população considerada inferior fosse eliminada, e para isso foram criadas políticas que proibiam a entrada dos africanos no país, incentivando a miscigenação dos negros com os europeus para que a sociedade embranquecesse.

Os europeus que vinham para o Brasil eram incentivados e favorecidos por políticas do governo, ocuparam o mercado de trabalho, política que não deixava espaço para os negros que aqui estavam, ou seja, enquanto eram escravos trabalhavam, quando o trabalho passa a ser assalariado o espaço passa a ser dado aos brancos. O que havia era um credo na superioridade branco européia. Para os europeus, mesmo livres, os africanos não conseguiriam ser mais do que meros escravos, disfarçados dentro de uma liberdade ilusória, os negros e mulatos seriam apenas auxiliadores dos imigrantes europeus. Eles idealizavam que a miscigenação seria um processo civilizatório, pois tornaria a população do país mais branca.

Assim é marcada a primeira metade do século, com o surgimento de fortes movimentos negros contra a discriminação racial, uma política racista de Estado, e uma produção intelectual marcada pela idéia de “Democracia Racial”, quando não de “superioridade racial européia”.

O conceito de raça e a classificação da diversidade humana em raças teria servido para operacionalizar o pensamento. Infelizmente, desembocou numa operação de hierarquização que pavimentou o caminho do racialismo. Munanga aponta que para muitos o conceito de raça não deveria mais ser utilizado, mesmo ele ainda presente no uso popular e nos estudos produzidos na área de ciências sociais, que apesar de haver concordância de que não existe raça biologicamente, “justificam o uso do conceito como uma realidade social e política, considerando a raça como uma construção sociológica e uma categoria social de dominação e de exclusão”(MUNANGA, 2002).

Já a segunda metade do século XX o movimento negro brasileiro se reconfigura, a partir da luta passada e de referências africanas. O milagre econômico presente nessa parte do século, a industrialização e o crescimento econômico não influenciou a transformação da realidade da população negra brasileira. Esse período é marcado pelo fortalecimento de organizações negras, e apesar da repressão na ditadura militar, surge o Movimento Negro Unificado, as grandes festas Black, e o movimento HIP HOP no Brasil.

Se voltarmos aos movimentos negros dos anos 70, eles somavam arte e política, teatro e dança, numa proposta de consciência negra. Os grupos de militantes faziam diversas formas de práticas da cultura. Tensão se transformou entre os grupos que procuravam uma expressão política discursiva, que não tivesse dança ou teatro, que organizasse como os manda o figurino europeu, no estilo do partido, a parte do nosso forma de politizar o espaço político. O mais significativo dessas expressões de dança, teatro, música e consciência política foi a fundação do Ilê Aiyê, em 1974, em Salvador e do grupo Evolução de 1972 em Campinas. A principal expressão do político a “seco”, foi a fundação do Movimento Unificado Contra Discriminação Racial, em 1978, o que depois originou o MNU, em 1979. (CUNHA JUNIOR, 2003, Disponivel em: http://www.espacoacademico.com.br/031/31ccunha.htm, Assessado em seis de maio de dois mil e sete as quinze horas).

Segundo Guimarães (2003), a permanência do preconceito de cor e as desigualdades de oportunidades de vida entre negros e brancos no Brasil após a abolição fez com que surgissem no século XX novos movimentos sociais negros. Essa consciência racial segundo ele é fruto do “sentimento étnico nutrido pelos imigrantes europeus no final do século XIX e começo do século XX e o recrudescimento do racismo europeu entre 1920 e 1939”, é como se fosse uma reação a esses sentimentos. A partir da década de 1970 a militância negra no Brasil “tomou um rumo cada vez mais racialista e africanista” (GUIMARÃES, 2003), buscando definir como negro tudo que antes era pensado como afro-brasileiro. Esse é o processo que Guimarães(2003) chama de “modernidade negra”.

A identidade negra brasileira foi, antes de tudo, uma construção política, de ”frentes” e de ativismo antidiscriminatório, pouco reivindicando, até os anos 1970, a pertença a uma “cultura negra” ou “africana”. (GUIMARÃES, 2003, p. 18)

No Brasil a formação da identidade étnico racial nos anos 1930 foi voltada para o interior, ou seja, afro-brasileira, e nos anos 1970 ela busca reforçar raízes externas, as raízes africanas.

Munanga (1986) define que o processo de construção da “negritude” é uma reação à divisão de raças colocada pelos europeus para legitimar a dominação sobre os negros, aliená-los e inferiorizá-los. Quando os negros começam a negar o “embranquecimento cultural” e a resgatar suas origens sócio-culturais africanas, dão origem ao que Munanga chama de “negritude”, afirmando que a história justifica a origem do termo, e que não é racismo às avessas, é uma reação “legítima de defesa”.

Os movimentos negros contemporâneos utilizam a idéia de “consciência negra” para construir a identidade e auto estima de uma população negra que conheça sua história.

Assim, numa breve definição, a Consciência Negra é, em essência, a percepção pelo homem negro da necessidade de juntar forças com seus irmãos em torno da causa de sua atuação – a negritude de sua pele – e de agir como um grupo, a fim de se libertarem das correntes que os prendem em uma servidão perpétua. Procura provar que é mentira considerar o negro uma aberração do “normal”, que é ser branco. (STEVE BIKO, 1971, texto impresso sem numeração de página, pertencente a coletânea de textos do livro “Escrevo o que eu quero”).

A identidade cultural construída historicamente pelos negros, tendo início na travessia do atlântico, vem se intensificando historicamente dando base para o movimento político de superação do racismo. Esses novos movimentos sociais negros reivindicam o respeito às diferenças, o direito de preservar os valores culturais das religiões matrizes africanas, a sua beleza e os seus valores.

No próximo capítulo, a discussão é sobre um dos movimentos negros mais importantes da atualidade, o movimento HIP HOP, dentro da perspectiva política das Posses de HIP HOP. Entender o processo histórico do negro no processo da diáspora africana se faz necessário para que seja possível compreender como se dá a construção da identidade política negra, que se apropria de conceitos históricos para afirmar sua negritude.

CAPÍTULO III

A FORMAÇÃO DO MOVIMENTO HIP HOP: CONTEXTO HISTÓRICO, MOMENTO POLÍTICO E SUAS INFLUÊNCIAS.



“Os vigorosos ritmos da África Ocidental sobreviveram ao tráfico de escravos e continuam a soar nas terras da diáspora africana, dando origem a samba, jazz, salsa, rock e hip hop”. (National Geographic, abril de 2007, ano 7, nº 85)

HIP HOP é um movimento sócio-cultural composto por cinco elementos: Dj e MC (RAP), Breaking e Graffiti[4], tendo como quinto elemento o conhecimento. Forma-se na década de 70 por jovens negros nos guetos de Nova York, entre eles, grupos caribenhos que imigravam para o E.U.A. nesse período para fugir dos conflitos sociais existentes em seus países. Ao chegarem nos E.U.A. encontraram uma realidade diferente do que esperavam, a brutalidade do racismo e exclusão social. Esses jovens negros caribenhos levaram consigo para os guetos de Nova York seus elementos culturais que juntando-se com outras manifestações negro-juvenis chegaram mais tarde a formação dessa manifestação cultural – o movimento HIP HOP.

Um entrecuzamento de influências africanas oriundas das ilhas iluminava Nova York agora: afro-cubanos, afro-haitianos, afro-jamaicanos, afro-dominicanos e afro-porto-riquenhos. A África crioula, sob o domínio de cinco grupos, intensificando as influências anteriores de Garvey, Parker, Coltrane e Malcon X. (THOMPSON, Disponível em: http://www.uol.com.br/bienal/23bienal/especial/peba.htm, acessado em 09 de Junho de 2006, as 15:48h, apud Ribeiro, 2006, p. 19).

Na segunda metade do século XX, os E.U.A passava por um momento de conflito, além da guerra fria, onde havia uma disputa com a U.R.S.S para barrar o crescimento do socialismo e expandir o capitalismo, estavam em combate com o Vietnã, tendo como intuito derrubar o Vietnã do norte, comunista, e fortalecer o capitalismo do Vietnã do sul. Diante desse contexto, o país passava por uma profunda crise econômica, onde a pobreza expandia-se juntamente com o preconceito racial (MARQUES, 2006).

Nesses conflitos a estratégia dos E.U.A era mandar principalmente pobres e negros para a guerra, e os que se recusassem a ir eram presos. Estratégia para eliminar parte excluída da população.

No mesmo momento, os E.U.A vivia um regime de apartheid, e até os anos 50 existiam no país leis segregacionistas. O país era organizado através de espaços para brancos e espaços para os negros, e os utimos tinham as piores condições de vida.

Os jovens caribenhos, mais especificamente os Jamaicanos, criaram nos anos 60, ainda na Jamaica, os “Sound Systems”, um tipo reduzido de trio elétrico que servia para animar os bailes, os quais eram acompanhados dos “toasters” (percussores dos MC’s), que comentavam a situação política das comunidades além de agitar as festas (GEREMIAS, 2006). Ainda, fora do Bronx, surgem as primeiras raízes do HIP HOP. Kool Herc (nome original Clive Campbell) e Afrika Bambaataa foram os percussores desse movimento.

Nos anos 70, a cidade de Nova York estava passando por uma crise econômica, que se refletiu nos investimentos culturais que eram feitos nas escolas, espaço que propiciavam minimamente aos jovens da periferia dessa cidade os meios de acesso à arte, música e etc. Este fato fez com que os jovens do South Bronx e do Harlem buscassem novas formas de entretenimento. Em 1973, um jovem negro, chamado Afrika Bambaataa, morador do conjunto habitacional Bronx Rivers Houses, colocou uma caixa de som na janela do apartamento em que morava com sua mãe, ligando ao toca disco em seu quarto, e soltou o som para a comunidade. Na década de 60, o DJ Kool herc trouxe da Jamaica para as ruas do bronx “a técnica do famoso sound systems de Kingston”. Na Jamaica, Herc e outros DJ’S costumavam fazer versos improvisados, “revivendo os griots africanos”. DJ Kool Heerc começou a realizar festas na East Bronx, e outro jovem, Grandmaster flash, ficou conhecido na região sul por inovar o uso dos equipamentos de som.

Os Jovens do Bronx criaram um ambiente de atração musical influenciados pelos jovens negros de várias regiões vizinhas, como jamaicanos, porto-riquenhos e dominicanos. A manifestação musical da cultura HIP HOP, além das influências do soul e do funk, é:

Nutrida pelas relações sociais no South Bronx, onde a cultura jamaicana do sound-system foi transplantada durante os anos de 1970 e criou novas raízes. Em conjunto com inovações tecnológicas específicas, essa cultura caribenha expulsa e reenraizada acionou um processo que iria transformar a autopercepção da América negra e igualmente uma grande parcela da indústria da música popular. (GILROY, 2001, p. 89, apud RIBEIRO, 2006, p. 33).

DJ’s Kool Herc, Grandmaster Flash e Afrika Bambaataa.

Nessas festas, o DJ (Disk-Jockey) cuidava dos toca-discos (lançando as músicas negras do momento: Funk e Soul), enquanto os MC’s (Mestres de Cerimônia) agitavam as festas aproveitando os deixas das músicas para improvisar em forma de rima sobre a realidade local. Enquanto o DJ inventava os riscos nos vinis, o chamado “scratch”, os MC’s improvisavam e desafiavam-se nas rimas, o público dançava, dando origem ao Breaking. Os grafiteiros pintavam a sua realidade, e também disputavam entre si. A segregação sócio-espacial existente nos E.U.A (MARQUES, 2006) naquela época implicava principalmente sobre a vida dos negros, através do desemprego, exclusão, baixa escolaridade, e foi um dos motivos que ocasionou o surgimento do movimento contestador HIP HOP. O movimento HIP HOP surge como alternativa a exclusão vivida por jovens negros na década de 70.

Essa é a re-significação de uma cultura transatlântica, as rodas, o desafio, o canto falado, rimado, que expressa o cotidiano através de alguns valores culturais africanos, que atravessaram o atlântico e sobreviveu a realidade do navio negreiro. No momento em que surge o HIP HOP, os guetos de Nova York estavam contagiados pelo Funk e pelo Soul. Além do caráter dançante, o RAP contém a poesia, o canto falado, que tem origens nos griots, tradições orais africanas que sobreviveram e se reinventaram até chegar a formação do HIP HOP. Os griots, contadores de histórias do continente africano, tem mantido sua tradição, através do RAP, Repente, desafios, rimas e etc.

Os etnomusicólogos remontam as raízes do hip hop a danças, batuques e canções dos griots, ou contadores de histórias do oeste da África, cuja junção de palavras com música era usada para exprimir a dolorosa jornada de escravos que conseguiam sobreviver a travessia oceânica. As cantigas de roda, os cantos de trabalho e os hinos religiosos dos primeiros escravos recorriam a elementos comuns a música africana, tais como a chamada e resposta e o improviso. ‘a canção recitada faz parte da cultura negra a muito tempo’, diz o pesquisador Samuel A. Floyd. Entre os negros americanos, os duelos verbais, os desafios rimados, as histórias que zombavam de si e os casos de negros que enganavam brancos eram modos de recuperarem algum controle de seus destinos.(National Geographic, abril de 2007, ano 7, nº 85).

Segundo Spensy Pimentel (1997), o HIP HOP é o movimento negro e jovem mais importante da atualidade.

Dentro do contexto do apartheid, desde o fim da escravidão nos Estados Unidos, os negros norte-americanos organizavam-se para lutar contra a opressão racial, assim como em outras partes do mundo onde foram escravizados. Existiram diversas lideranças que antecederam o surgimento do movimento HIP HOP, como Martin Luther King (1929-1968), protagonista dos movimentos pacifistas pelos direitos civis, até os mais agressivos, como os Black Panthers (1966-1980) que pregavam a auto-defesa e eram comunistas, revolucionários da luta anti-racista.

O Partido dos Panteras Negras (Black Panters) exercia grande influência sobre a juventude da época, apontando “a necessidade da organização grupal, da dedicação aos estudos e do conhecimento das leis jurídicas” (PIMENTEL, 1997). Buscavam brechas nas leis para poder exercer sua auto-defesa, e intimidar o poder da polícia. No Brasil, os HIP HOPPPERS se espelharam nesse movimento para combater a violência policial e o racismo.

Essa linha revolucionária influenciou toda a geração que deu origem ao HIP HOP, e grande parte de seus praticantes eram irmãos mais novos dos Black Panters.

Os HIP HOPPERS expressavam através das suas manifestações, a realidade de negras e negros e sua auto-valorização.

O Rap é formado pelo DJ e pelo Mc, porém, esses dois elementos surgem de forma separada, que no desenrolar da história passam a se complementar. No meio da miséria, do apartheid, racismo, surge o RAP, que da oportunidade aos jovens dessas periferias a expressarem livremente seus anseios.

Concomitantemente se desenvolvem outras manifestações que viriam formar mais tarde o movimento HIP HOP. Em 1967, existiam gangues de Breaking espalhadas pelos guetos de Nova York, que resolviam seus problemas grupais através da dança. Foi uma oportunidade de diminuir a violência, e incluir jovens que poderiam ser futuros marginais.

Surgia também a arte de escrever nos muros, o Grafite, que expressava-se inicialmente como Tag (assinatura), onde os jovens jogavam na parede a visão de mundo sobre a realidade em que viviam. Os grafiteiros e grafiteiras, invadiam as áreas nobres da cidade de Nova York, e deixavam suas presenças nos muros do local onde eram segregados e excluídos. O grafite era uma maneira dos jovens negros e caribenhos invadirem as áreas nobres da cidade, mostrando a realidade vivida por eles nos guetos e nunca vistas pela elite.

HIP HOP significa saltar movimentando os quadris respectivamente, por conta da forma da dança na época. Quem estabeleceu o nome desse movimento foi Afrika Bambaataa, em 1978.

James Brown (rei do Funk) e Afrika Bambaataa (DJ, HIP HOPPER)

Segundo Ribeiro (2006)

O HIP HOP, movimento urbano de caráter essencialmente jovem, pode ser interpretado como mais um dos resultados direto do processo de diáspora negra, deslocação forçada de enorme contingente populacional africano, para ser utilizado como mão de obra escrava no continente americano. (RIBEIRO, 2006, p. 11).

Esse processo seria uma re-significação das culturas africanas no novo mundo, os africanos no processo de escravidão e separação de seu território, trazem consigo suas tradições culturais, que como produções simbólicas, podem ser reafirmadas no contato com o novo, ou seja, interpretam o novo a partir da sua visão de mundo, e assim mantém suas tradições (SAHLINS, 1997).

Gilroy define a formação da identidade negra como construção política, histórica através do intercâmbio cultural ocorrido no atlântico. Ele faz uma abordagem da produção cultural do negro nas Américas como uma contra-cultura da modernidade ocidental, destacando a diáspora africana como um processo em que gerou uma dinâmica cultural formadora do que denomina de “Black Atlantic”, “Desde que o primeiro navio negreiro saiu da África, o "Black Atlantic" se formou, violentamente” (VIANA, 1999).

Diante de toda repressão e sofrimento, negros de diversas regiões do continente africano estabeleceram um intercâmbio cultural a partir da travessia do atlântico.

Antes, durante e depois da escravidão, até os dias de hoje, a cultura foi um instrumento de mobilização da população negra, que através das rodas, da religiosidade, da dança, do canto colocavam seu discursos político sobre sua realidade, e transmitiam suas tradições; vemos isto nas rodas de capoeira do século XVIII, o jongo no século XIX, e no movimento HIP HOP do século XX. Características africanas, como a oralidade, os Griots, encontram-se concomitantemente nas rodas da música negra no continente americano. No tempo da escravidão os negros adaptaram as músicas tradicionais africanas aos cantos de trabalho, hinos religiosos e ao instrumento musical.

(...) os fluxos culturais do Atlântico têm configurado uma geopolítica do conhecimento e da racialização que é bastante mutável, e na qual se desenvolveram emissores e receptores nos últimos séculos. (SANSONE, 2006, p. 269).

Diante do sofrimento, durante o tráfico de escravos, crime praticado contra os povos africanos, as culturas que atravessaram o atlântico se cruzavam e criavam meios de consolação.

“As culturas eram os meios vivos pelos quais se uniam os pontos naquele mundo atlântico (...)” (GILROY, 2001, p. 60) “. Os navios que atravessavam o atlântico segundo o autor devem ser pensados enquanto unidades culturais e políticas em lugar de incorporações abstratas de comércio triangular.

Essas diferentes culturas se misturaram no atlântico, e têm papel fundamental na articulação as lutas negras no Novo Mundo.

(...) O poder da música no desenvolvimento das lutas negras pela comunicação de informações, organização de consciências e tese de articulação das formas de subjetividade exigidas pela atuação políticas, seja individual ou coletiva, defensiva ou transformadora, exige atenção tanto aos atributos formais dessa cultura expressiva como a sua base moral distintiva(...) (GILROY, 2001, p. 93).

A realidade da escravidão não foi acompanhada somente de sofrimento, trabalho forçado, assimilação cultural, houve resistência, e através da re-significação das culturas negras nas Américas, o povo afro-diaspórico construiu elementos para manter a dignidade e a identidade do povo africano no Novo Mundo. Negras e Negros estabeleceram uma contra-cultura da modernidade a partir de sua experiência histórica.
3.1

HIP HOP no Brasil



As mudanças estruturais e econômicas ocorridas na sociedade na segunda metade do século XX levaram a transformação dos modelos tradicionais de representação, organização e ação coletiva. Até esse momento, organizações tradicionais caracterizavam-se por serem homogêneas, de classe trabalhadora e operária. As transformações sociais desse período geraram novas formas de exclusão social, que desembocou no fortalecimento da sociedade civil na década de 1970, gerando os “novos movimentos sociais” que incluíram a palavra cidadania no vocabulário da sociedade; a partir da busca por participação nas decisões políticas modifica-se a forma de exercício de poder, configurando um “modelo participativo” de negociação e deliberação pública e política. Dentro desse contexto, as organizações tradicionais são enfraquecidas, e nascem as “novas formas de associação civil”, que representam a heterogeneidade de interesses presentes na sociedade, como novos movimentos sociais negros, feministas, artísticos-culturais, ambientalistas e de participação social e democrática.

Atores tradicionais transformados em novos atores sociais buscam desenvolver ações coletivas destinadas a obter os direitos básicos de toda a democracia liberal e, desse modo, dar consistência a uma sociedade civil autônoma e democrática em relação ao estado. (PANFICHI; CHIRINOS, 2002, p. 326).

Na década de 70, momento em que o movimento negro no Brasil mostra-se em uma nova configuração, como colocado no capítulo II, onde a identidade afro-brasileira é substituída pela identidade negra, ou negritude, que tem como referência as experiências dos negros da diáspora, e a luta pela libertação dos povos africanos, surge o movimento HIP HOP, momento que Guimarães (2003) chama de “modernidade negra”.

A década de 70 é caracterizada por um crescimento econômico do qual a população negra do país não era beneficiada, os dados em relação a essa parcela da população que se referem a desenvolvimento social só têm piorado historicamente, devido aos altos níveis de exclusão estruturados no racismo (GONZÁLES, 1982). Os altos índices de desigualdade raciais serviram para derrubar o mito da democracia racial, tendo como percussores desse debate os novos movimentos sociais negros.

O movimento HIP HOP surge no Brasil nesse momento em que a sociedade passa por transformações que refletem nas formas de organização da sociedade civil.

No Brasil o HIP HOP se torna gradativamente a mais recente etapa de uma processo de resistência que há mais de séculos vem sendo desenvolvida por sua população afro-descendente, num processo continuo de constituição de uma identidade negra neste país (...). (RIBEIRO, 2006, p. 71).

Os movimentos que iniciaram a formação do movimento HIP HOP no Brasil eram os Bailes Black (São Paulo e Rio de Janeiro), que uniam a população negra pelo Brasil e expandiam a consciência Black Power. Segundo Pimentel (1997), “apresentavam a projeção de slides com cenas de filmes sobre os negros americanos, além de fotos dos negros famosos, músicos ou esportistas brasileiros e estrangeiros”. Também divulgavam-se idéias de africanos e negros da diáspora, como o livro que se tornou moda, “Uma alma no exílio”(1971) de Eldridge Cleaver.

Na mesma época em que Grandmaster Flash realizava suas primeiras festas com 3 ou 4 mil pessoas em Nova York, no Rio de Janeiro havia bailes soul para até 15 mil pagantes. A partir dos primeiros Bailes da Pesada, organizados pelo discotecário Ademir Lemos e o locutor de rádio Big Boy, o Black Power espalhou-se pelo Brasil, sobretudo por São Paulo, Brasília e Salvador. (PIMENTEL, 1997, Disponível em: www.realhiphop.com.br/olivrovermelho).



Imagem do Baile Black na década de 70



Nesse momento apareceram personalidades do mundo da música e cultura negra no Brasil como Gerson King Combo, Tony Tornado, Jair Rodrigues, Tim Maia, Milton Salles, Valmir Black, Nino Brown, Nelson Triunfo, entre outros.

As idéias difundidas nas músicas como a frase de James Brown "Say it loud: I’m black and proud!" (Diga alto: Sou preto e tenho orgulho disso!), eram tidas como referências para a construção do orgulho negro. A música era um instrumento de construção da identidade negra nesse período, Luiz Geremias (2006) afirma que a música negra trazia inspirações de uma unidade negra, um estilo de vida:

Havia a filosofia que embalou os sonhos dos Panteras Negras, o grupo político que fez da radicalização do protesto negro sua bandeira de luta nos Estados Unidos da década de 60, uma sociedade que ainda absorvia as idéias de Malcolm X, considerado o profeta do orgulho negro. Tratava-se de um apelo à união da raça em torno de um modo de se vestir, de dançar, de ser, de ter e demonstrar uma “atitude”, termo muito usado pelos Hip Hoppers de hoje. (GEREMIAS, 2006, p. 38)

Os movimentos dos Bailes Black foram também perseguidos pela polícia na ditadura militar, por estimularem o orgulho negro, o que incomodava o poder. Passaram por dificuldades que ocasionou o desaparecendo do seu caráter político nos bailes do Rio, sendo substituído pelo Miami Bass, conhecido como Funk Carioca.

O filme Beat Street[5] (Stan Lathan, 1984) foi fundamental para expandir a ideologia do HIP HOP pelo Brasil.



Capa do Filme Beat Street

No circuito HIP HOP brasileiro, além das raízes formadas nos Bailes Black, houve a organização de jovens negros na estação São Bento em São Paulo, espaço que foi palco de consolidação do movimento no país. Lá surgiram diversas gangues de breaking que existem até os dias de hoje.

Podemos dizer que a consolidação do HIP HOP no Brasil deu-se através das reuniões realizadas por jovens negros na praça São Bento, centro de São Paulo. Nessas reuniões MC’s, dançarinos e intelectuais de rua buscavam conhecimento sobre os elementos do movimento HIP HOP, e tinha acesso a revistas produzidas pelos hip hoppers norte americanos que eram traduzidas como diz KL Jay[6]: “Um cara arranjava uma revista, traduzia naquele inglês macarrônico, levava para o pessoal...”(GEREMIAS, 2006, p. 44).

O primeiro ponto de encontro desses jovens foi à praça Roosevelt, logo depois a galeria 24 de maio e em seguida o Largo São Bento. Foi na praça São Bento que os dançarinos de breaking aprimoraram suas técnicas de dança, e passaram a difundir esse conhecimento não só com o corpo, mas também com a mente; foi lá também que nasceu o rap brasileiro, que eram cantados em cima de palmas e bases feitas com a boca, que imitavam o som das batidas (Geremias, 2006).

A música Senhor Tempo Bom de Thaide e DJ Hum[7] expressa muito bem o surgimento do movimento HIP HOP no Brasil:

Que saudade do meu tempo de criança,

quando eu ainda era pura esperança,

eu via nossa mãe voltando pra dentro do nosso barraco,

com uma roupa de santo debaixo do braço.

Eu achava engraçado tudo aquilo,

mas já respeitava o barulho do atabaque,

E não sei se você sabe, a força poderosa que tem na mão

de quem toca um toque caprichado, santo gosta.

Então eu preparava pra seguir o meu caminho,

protegido por meus ancestrais.

Antigamente o samba-rock, black power, soul,

assim como o HIP HOP era o nosso som.

A transa negra que rolava as bolachas,

a curtição do pedaço era o La Croachia,

eu era pequeno e já filmava o movimento ao meu redor,

coriografias, sabia de cor.

E fui crescendo rodiado pela cultura Afro Brasileira,

também sei que já fiz muita besteira,

mas nunca me desliguei, das minhas raízes,

estou sempre junto dos blacks que ainda existem.

Me lembro muito bem do som e o passinho marcado

eram mostrados por quem entende do assunto,

e lá estavam Nino Brown e Nelso Triunfo,

juntamente com a funk & cia que maravilha.

(Refrão)

Que tempo bom, que não volta nunca mais

Que tempo bom, que não volta nunca mais

Que tempo bom, que não volta nunca mais

Que tempo bom, que não volta nunca mais.

Calça boca de sino, cabelo black da hora,

sapato era mocasin ou salto plataforma.

Gerson King Combo mandava mensagens aos seus,

Toni Bizarro dizia com razão, vai com Deus.

Tim Maia falava que só queria chocolate,

Toni Tornado respondia: Podê Crê,

Lady Zu avisava, a noite vai chegar,

e com Totó inventou o samba soul,

Jorge Ben entregava com Cosa Nostra,

e ainda tinha o toque dos Originais,

falador passa mal rapaz,

saudosa maloca, maloca querida,

faz parte dos dias tristes e felizes de nossa vida.

Grandes festas no Palmeiras com a Chic Show,

Zimbabwe e Black Mad eram Company Soul,

anos 80 comecei, a freqüentar alguns bailes,

ouvia comentários de lugares.

Clube da Cidade, Guilherme Jorge,

Clube Homes, Roller Super Star,

Jabaquarinha, Sasquachi, como é bom lembrar.

Agradeço a Deus por permitir,

que nos anos 70 eu pudesse assistir, Vila Sézamo,

numa década cheia de emoção,

Hooligueler entortando garfos na televisão,

10 anos de swing e magia,

que começou com o Brasil sendo Tri-campeão.

(Refrão)

O tempo foi passando, eu me adaptando,

aprendendo novas gírias, me malandreando,

observando a evolução radical de meus irmãos,

percebi o direito que temos como cidadãos,

de dar importância a situação,

protestando para que achamos uma solução.

Por isso Black Power continua vivo,

só que de um jeito bem mais ofensivo,

seja dançando break, ou um DJ no scratch,

mesmo fazendo Graffiti, ou cantando RAP.

Lembra da função, que com gilette no bolso

tirava o couro do banco do buzão,

uma tremenda curtição?

E fazia na calça a famosa pizza.

No Centro da cidade as grandes galerias,

seus cabeleireiros e lojas de disco,

mantém a nossa tradição sempre viva.

Mudaram as músicas, mudaram as roupas,

mas a juventude afro continua muito louca.

Falei do passado e é como se não fosse,

o que eu vejo a mesma determinação no HIP HOP

Black Power de hoje.

(Refrão)



Essa música retrata o espaço e tempo de vivência dos jovens negros daquela época, os clubes onde tudo começou, o nome das referências do movimento HIP HOP brasileiro, além de trazer as influências do movimento “black power” na construção da identidade negro-juvenil.

As galerias que mantém a tradição do HIP HOP viva, como citado na música por Thaide e DJ Hum, são localizadas no centro de São Paulo, onde começou as vendas de discos da black music, roupas e haviam os salões de cabeleireiro afro, sendo a principal referência Galeria do Rock, conhecida como 24 de maio . A galeria 24 de maio é até hoje um ponto de referência dos HIP HOPPERS, um ponto de encontro, e continua mantendo suas características, tendo as marcas mais perseguidas da juventude negra, grandes salões de penteados afros, e os discos musicais mais procurados da black music. Sendo um ponto de encontro do jovens negros, é até hoje alvo de abusos de autoridade policial; os hip hoppers eram freqüentemente abordados quando ocupavam o centro da cidade para buscar referências dessa cultura que estava se formando.

Hoje, na Galeria 24 de Maio, no shopping que foi inaugurado ainda nos anos 60, sendo provavelmente o primeiro da cidade, há, no subsolo, várias lojas dedicadas ao gênero, algumas tão antigas quanto o Hip Hop nacional. Por isso os jovens negros, na virada dos anos 70 para os 80, começaram a freqüentar o local, para comprar discos nas lojas e entre si, e saber das novidades que envolviam a nascente black music – soul e funk predominantemente – que se estabelecia nos EUA e começava a ganhar a simpatia da juventude negra no Brasil. (GEREMIAS, 2006, p. 42)

Assim como nos E.U.A e em outros lugares do mundo, o HIP HOP no Brasil se tornou um movimento de maioria jovem e negra, que expressavam suas idéias através do Rap, do Grafite e do Breaking.

Jovens do movimento HIP HOP no Brasil começaram a buscar a história do povo negro e difundi-las através das estratégias da música, da dança e do grafite.



Com um discurso de protesto social, principalmente no RAP:

“Nesse momento os rappers enfatizaram que o ‘autoconhecimento’ é estratégico no sentido de compreender a trajetória da população negra na América e no Brasil. Livros como ‘Negras Raízes’ (Alex Haley), ‘Escrevo o que eu quero’ (Steve Biko), biografias de Martin Luther King e Malcom X, a especificidade do racismo brasileiro, especialmente discutida por Joel Rufino e Clóvis Moura, bem como lutas políticas da população negra, passaram a integrar a bibliografia dos rappers”. (ANDRADE (1999), apud PIMENTEL, 1997, disponível em: www.realhiphop.com/olivrovermelho , Assessado em doze de maio de dois mil e sete as vinte horas).

A partir dessa politização crescente com o surgimento do HIP HOP no Brasil, começam a surgir as posses, o que Osmundo Pinho (2001) define como grupos coletivos que se organizam localmente, em seus bairros ou regiões, com o objetivo de resgatar da auto-estima da juventude local e promover a conscientização política.

A HIP HOP no Brasil assume características distintas dos E.U.A, principalmente pela atuação da posses. Nos E.U.A as posses tinha como característica expandir o lado cultural do HIP HOP, através de eventos e gravações. Já no Brasil, as posses partem para as atividades políticas e comunitárias, além da promoção da produção cultural, exercendo um papel de educação informal na periferia.



3.2

Os cinco elementos do movimento HIP HOP

Os quatro elementos do HIP HOP (DJ, MC, Break, Graffiti) surgem separadamente, em diferentes localidades, e se juntam nas ruas do Bronx na década de 1970, aliando a prática cultural a um quinto elemento, o conhecimento.



3.2.1

O RAP

Rap significa Rhythm and Poetry (ritmo e poesia em português). Essa vertente musical junta a sonoridade produzida pelos DJ’s (Disc Jockeys) e o canto falado dos MC’s (Mestre de Cerimônia). No Brasil essa sigla ganha novos significados, identificamos interpretações entre os HIP HOPPERS como: Ritmo Alternativo e Protestante, Revolução Através das Palavras, entre outras.

DJ e MC surgem em momentos diferentes, e no decorrer da história se juntam. Primeiro surgem os DJ’s que realizavam as festas tocando a música negra nos guetos, e logo os MC’s que animavam as festas, passando uma mensagem consciente para a comunidade.

Através dos toca-discos (chamado no HIP HOP de Pick up) o DJ Jamaicano Kool Herc começou a experimentar técnicas utilizando-se do vinil, que antes era objeto para ouvir música, para mesclar as músicas cortando-a em pedaços e misturando-as.



Pickup do DJ

Na década de 1950 aparecem na Jamaica, com o intuito de criar uma nova forma de entretenimento, os Sound Systems, um grupo de MC’s e DJ’s Jamaicanos que tocavam estilos da música negra para divertir a juventude negra sem ter que pagar entrada para participarem das festas. O DJ tinha o papel de selecionar as músicas para tocar nessas festas de rua.

Em 1973 estas manifestações chegam ao Bronx através de um jovem de apenas 15 anos, o DJ Kool Herc, que ao sair de Kingston, na Jamaica, leva sua bagagem cultural para os guetos de Nova York. Com outros DJ’s, Afrika Bambaataa, Grand Master Flash e Grand Wizard Theodore (inventor do scratch), começa a difundir as festas de rua nas periferias da cidade. Nessas festas os DJ’s começam a desenvolver técnicas de manipulação dos discos, dando um novo estilo para a expressão musical[8].

Os DJ’s fazem colagens de outras músicas, o chamado sampler, e movimentam os pratos do toca-disco para trás e para frente fazendo o scratch. “Dentre os sons utilizados por bandas de RAP, além disso, podemos encontrar todo tipo de ruído e com freqüência ouvimos tiros, sirenes de polícia, ruídos de carros e de trânsito intenso, além de outros sons evocativos da violência urbana’’. (OSMUNDO, 2001, p. 69).

Os MC’s produzem e cantam as letras que acompanham a sonoridade realizada pelo DJ. A letra e o som se complementam na realização da música RAP.



O MC através do seu instrumento microfone, produz o canto falado caracterizado por suas letras longas que retratam o cotidiano de suas “quebradas”.

O papel do MC é associado aos GRIOT’s africanos, onde a fala tem grande poder de preservar as tradições, retratar o cotidiano e estabelecer um meio de comunicação entre as comunidades.

Em 1979 surge a primeira música de RAP que fez sucesso a nível mundial, chamada “Rapper’s Delight” do grupo Sugar Hill Gang, que ficou conhecida no Brasil como o “melo do tagarela”, e por conta disso o RAP ficou conhecido como Tagarela.

O primeiro RAP gravado no Brasil foi “Deixe que diga, que pense, que fale...” em 1964 por Jair Rodrigues.

No Brasil o primeiro disco de RAP lançado foi “Kaskatas – a ousadia do rap made in Brazil” em 1988, seguido da coletânea “HIP – HOP. Cultura de rua. O som das ruas” em 1989.



Capa da coletânea “HIP – HOP. Cultura de rua. O som das ruas”



Segundo Osmundo Pinho (2001), o contra-discurso contido nas letras de RAP faz com que esses jovens representem o intelectual orgânico de Gramsci, por produzirem músicas críticas sobre a realidade em que vivem, assumindo um caráter politizador, difusor de uma postura que vai contra os ideais hegemonicamente dominantes na sociedade.



3.2.2 Graffiti

Graffiti é uma palavra que vem do italiano “graffiti” que significa escritas feitas de carvão, ou inscrição feita em muro. No final da década de 60 jovens do Bronx começaram a praticar a arte do graffiti, formando gang’s que disputavam entre si, dermacando espaços na cidade com seus traços artísticos, que também protestavam contra a exclusão social.

A maioria dos grafiteiros afirmam que o graffiti surgiu nos tempos das cavernas com os desenhos feitos na parede que representam a realidade e o conhecimento dos povos antigos. A concepção de graffiti no movimento HIP HOP se refere aqueles traços que jovens negros desenhavam nos muros da cidade dialogando entre si, através das idéias protestadas e expressas nas paredes.

O percurso dos grafiteiros inicia-se pelas “tags”[9], que é a assinatura dos writers[10].

Os grafiteiros dão forma a sua criatividade e a sua visão de mundo através da lata de spray que atingem as paredes dando origem a mensagens simbólicas. Essas mensagens podem ser dedicatórias, reivindicatórias, críticas, ironizando a realidade, divertidas, coletivas ou pessoais.

As crews[11] são as formas de atuação coletiva dos grafiteiros. Esses jovens expressam a necessidade de colocar nas paredes a sua identidade através da linguagem que compartilham entre eles. Eles encontram nas paredes da cidade o espaço para expressarem suas necessidades, tornando esses espaços em telas que dão vozes aos seus anseios. Pra ter reconhecimento entre os grafiteiros, é preciso ocupar territórios dentro do ambiente urbano, demarcando espaços.

Há, assim como nos outros elementos do HIP HOP, o respeito aos mais velhos praticantes, ou seja, a “velha escola”. Existem também os espaços chamados Hall of Fame, que são os espaços ocupados somente pelas pinturas dos writers mais considerados entre os grupos, os chamados king’s[12]. Há também os chamados Toy’s, nome que se da aos writers inexperientes, que estão começando a praticar o graffiti, ou que não conseguiram alcançar o nível de qualidade e respeito entre os grafiteiros.

Quando há dificuldades de praticar a ação artística, o writers praticam o chamado bomber[13], uma maneira de pintar o máximo possível dentro do menor tempo com letras mais simples e eficazes; é uma prática assumida pelos próprios grafiteiros como estando mais ligada ao vandalismo do que ao graffiti, e geralmente são feitos na calada da noite. O graffiti por ser uma ação autorizada pode ser feito a qualquer hora do dia. Vale lembrar que mesmo o graffiti sendo uma prática autorizada, os grafiteiros sofrem a mesma perseguição policial que os pichadores.

Quanto mais difícil o lugar onde se encontra o graffiti, o lugar mais arriscado para grafitar[14], mais status terá o writer que teve a atitude desafiar o espaço; o local onde é feito o graffiti é denominado de Spot pelos grafiteiros.

Apesar das diferenças existentes entre as crews, há uma identidade que une e que cria uma comunhão entre elas, é o fato de compartilharem a mesma cultura.

Se muitas pessoas ficam assustadas ao andarem pelas ruas da cidade e se depararem com paredes totalmente ocupadas pelo graffiti, como se essas imagens expressassem um ambiente de criminalidade, em contraste a essa idéia os grafiteiros ficam totalmente incomodados ao encontraram na cidade paisagens de paredes brancas, que pra eles estão sem vida.

Existem diversas categorias do graffiti: Tag, Hall of Fame, Bombing, Throw-up, Roof-top, Wild Style, 3D, Bubble Style, Characters, Whole Train, End to end, Top to bottom, Backjump, Cap, Cross, Fill-in, Highline, Outline, Degradé, Bite e Asdolfinho[15]







3.2.3

Breaking



Breaking, Bboying, Rocking, Break como é conhecido é um estilo da dança criado por jovens negros na década de 60 através de diversas gangues espalhadas pelas ruas de Nova York.

"Pelo menos desde 1967 existem as gangues de break, que, em suas batalhas para definir quem poderia dançar melhor, foram automaticamente tirando das ruas inúmeros jovens que poderiam se tornar marginais em potencial". (PIMENTEL, 1997 apud GEREMIAS, 2006, p. 26).

A dança era um caminho para resolver diferenças entre os grupos sem a manifestação da violência, e de ocupar o tempo dos mesmos mantendo-os longe da criminalidade.

Os dançarianos do Breaking são chamados de B.boys e B.girls, termo criado pelo DJ Kool Herc.



James Brown foi o grande influenciador desta dança:

Brown criou para “Get on the Good Foot”, uma dança espontânea e elétrica, baseada em subidas e descidas, giros e chutes. Os jovens de periferia pegaram o Good Foot e temperaram com a Rua. Surge o Up Rock no bairro do Brooklyn, um estilo de dança baseado no ataque e defesa, coisa que as gangues de rua da época sabiam muito bem fazer para conquistar mais espaço nas ruas. Enquanto isso, na Costa Oeste, em cidades como Los Angeles, Fresno, o Popping, o Locking e o Boogaloo estão por toda a parte fazendo milhares de jovens dançarem. E James Brown estava lá, marcando presença mais uma vez. (http://www.realhiphop.com.br/institucional/historia.htm , acessado em 03 de agosto de 2007 as dezenove horas.)

Algumas vertentes dessa dança surgiram em Nova York, outras em Los Angeles como aparece na citação acima. Ambas são influenciadas pela onda do Soul e os paços dançantes de James Brown. O breaking também carrega traços da capoeira, ginástica olímpica, artes marciais e danças encontradas no continente africano. Essa dança ganhou grande reconhecimento a partir dos anos 70, principalmente depois que apareceu em um programa musical americano chamado Soul Train, através do grupo LA Lakers.

O dançarino de breaking é aquele que dança da batida da música, e existem três fundamentos dessa dança: Top Rock (preparação) é como um passo de Funk estilizado, Foot Work (trabalho dos pés) trançando as pernas em volta do corpo continuamente, Freeze (congelamento) é a finalização da dança do solo do B. Boy.

Nas festas realizadas nos guetos de Nova York os b.boys dançavam enquanto os DJ’s brincavam com os intervalos dos compassos da música, o break, produzindo assim o beat. Kool Herc levava para as festas uma dupla chamada The Nigga Twins, que dançava nas quebras das músicas. O breaking assim como os outros elementos do movimento HIP HOP inventa uma nova maneira de ser jovem na cidade. Essa dança expressa uma nova linguagem artístico-corporal, estabelecendo uma relação entre o corpo e a realidade.

A dança Break, portanto, assume uma função nobre que a conduz para as raízes da vida. Mais do que uma modalidade de dança, o Break é uma maneira de existir. Re-significando a existência através de sua própria expressão artística é uma atitude do corpo, a favor de sua própria valorização. (ALVES; DIAS, 2004, p. 6).

Os passos da dança expressam a realidade vivida por esses jovens. Muitos passos do Breaking protestavam contra a guerra do Vietnã e manifestavam a insatisfação política em relação a mesma. A maioria do jovens que foram levados a guerra do Vietnã eram negros e latinos, por isso o motivo da aproximação da dança com o fator histórico. Nos paços quebrados do breaking essa juventude simulava os corpos dos soldados voltando mutilados da guerra, e o giro de cabeça em que o individuo a aponta para o chão, com as pernas para cima realizando voltas em torno do corpo, simbolizava a ação dos helicópteros durante a guerra. Além disso também fazem uma crítica as relações de trabalho mecanizadas que eram impostas nas linhas de produção dos E.U.A., através dos paços em que imitam um robô.



Giro de Cabeça – Roda de Break



Por meio dos rachas entre as gangues de breaking, os praticantes resolviam seus problemas de fronteiras. Os rachas existem até os dias de hoje. Há constantemente campeonatos municipais, regionais, estaduais, nacionais e mundiais. Essas batalhas lembram outras manifestações negras desenvolvidas fora e dentro do continente africano pelo fato dos seus praticantes incorporarem o espírito desafiador, improvisador através das rodas, além de carregar nos paços a história e o senso crítico da realidade.

Um dos maiores difusores do breaking foi o filme beat street já citado neste capítulo.



3.2.4

O quinto elemento: conhecimento





As ações políticas e sociais do movimento HIP HOP se realizam através do seu quinto elemento: o conhecimento. Sem o conhecimento o rap, o breaking e o grafite não teriam esse caráter informativo e conscientizador das questões sociais.

O conhecimento tem sido trabalhado principalmente através da atuação das Posses de HIP HOP, que são formas de organização coletiva, ligadas a comunidade, com uma atuação político cultural através deste movimento.

As posses mantém contato com as entidades do movimento negro, participam de eventos, simpósios e congressos promovidos por essas entidades, põem-se a trabalhar a questão racial, a pobreza, as drogas e a violência da sociedade brasileira; incentivam e procuram conhecer biografias de personalidades negras, elabora panfletos com resumo dessas biografias e as distribuem nos pontos de encontro da juventude negra. (ANDRADE, 1997, p. 73).

As organizações do movimento HIP HOP criam um espaço de referência e de identificação baseados na experiência social, cultural e étnica (MAGRO, 2002).

Na periferia, todos se encontram na rua, nos bailes, e a posse surge daí, reunindo dois ou três grupos de RAP. É um jeito de trocar idéia sobre música, arte e problemas de periferia, de estudar as nossas origens – a afro-descendência-, que a escola não ensina. Também é nossa união para lutar por espaço na sociedade, exigir locais para os nosso ensaios e apresentações. (MAGRO, 2002, p. 70).

Ser um HIP HOPPER exige a busca de um conhecimento que vai além daquele ensinado nos livros didáticos, esses jovens buscam referências históricas e constroem uma crítica social que esta para além do ambiente escolar. Sua atuação nas comunidades acaba exigindo um conhecimento político e preparo para praticar ações e intervenções sociais.

Assim como qualquer outra cultura, o HIP HOP esta passivo a se tornar uma mercadoria, pois produz música, dança e artes plásticas. Hoje temos, principalmente através do RAP, grande inserção do HIP HOP nas relações de mercado, onde se produz somente enquanto cultura, sem uma atuação política e social. Isso poder ser visto principalmente através das imagens dos rappers americanos na grande mídia, aqueles que fazem música de cunho comercial, longe daquele caráter revolucionário em que surgem as manifestações desse movimento. Segue abaixo uma reflexão citada por Miranda (2005) e desenvolvida por Preto Zezé, cantor de rap do grupo Comunidade da Rima e Coordenador Geral do Movimento Hip-Hop Cultura de Rua do Ceará, sobre como o H2 (Hip-Hop) opera face ao sistema capitalista:

A dança breaking passou a fazer parte de filmes, de comerciais, de pistas de dança, invadiu os palcos dos principais teatros. O dj passou a ser um fenômeno musical, e não mais específico da cultura Hip Hop. O rap se tornou um dos estilos musicais mais ouvidos e vendidos de todo o planeta, participando da trilhas sonoras dos filmes, de programas de tv. É líder de audiências nas rádios. O graffiti já faz parte da vida das grandes galerias de arte do mundo e por aí vai. A partir dessa massificação a indústria cultural, em particular a indústria porno-fonográfica e todo o seu aparato (radio, mídia escrita e televisada, etc.) inclui o Hip Hop, principalmente o rap, como elemento a ser produzido e comercializado pelo mercado. Esse que era até então uma manifestação espontânea da juventude explorada, discriminada e excluída pelo sistema. (Miranda, 2005, p. 7, artigo apresentado a disciplina Sociologia do Trabalho ministrada por Maria da Graça Druck, semestre 2005-1 na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas/UFBA. Revisado em junho de 2006).

Em contraste com isso temos um número cada vez maior de posses, e formas de organização em torno do HIP HOP enquanto movimento sócio-cultural.

O caminho pelo qual segue o H2 norte-americano tem impacto no Brasil e no resto do mundo. Mas é possível se verificar aqui resistência a essa tendência mesmo o país não possuindo o que poderíamos chamar de Movimento h2 brasileiro, atuando de modo estruturado e centralizado como atua o MST, por exemplo. (Miranda, 2005, p. 10, artigo apresentado a disciplina Sociologia do Trabalho ministrada por Maria da Graça Druck, semestre 2005-1 na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas/UFBA. Revisado em junho de 2006).

No cenário mundial vemos a presença daqueles que fazem do HIP HOP um movimento de cunho político, social e militante através da atuação em suas comunidades, e há aqueles que atuam somente tendo como referência o profissionalismo. A partir dessa polêmica surge a seguinte discussão: Cultura ou Movimento HIP HOP?

Um rapper chamado Jorge Hilton de Assis Miranda da banda Simples Rap’ ortagem, formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia, deu a seguinte definição para esta discussão:



A Cultura está no Movimento, mas nem sempre o Movimento está na Cultura;

Na Cultura se tem artistas, no Movimento se tem arte-educadores;

A Cultura trabalha o lado profissional, o Movimento trabalha o lado militante;

A Cultura é global (mundial), o Movimento é local (regionalizado);

A Cultura é passível de se tornar moda, o Movimento jamais;

Objetivo da Cultura: divulgar o Hip-Hop. Objetivo do Movimento: através do Hip-Hop transformar a realidade;

A Cultura é instrumento do Movimento, o Movimento é filho da Cultura;

Na Cultura se tem 4 elementos: rap, breaking, graffiti e dj. No Movimento se tem esses 4, e mais um quinto elemento: a militância (no Movimento todos são militantes);

Na Cultura se vê atitude, no Movimento se vê atitude e consciência;

Na Cultura a “batalha” é entre os artistas, no Movimento a batalha é contra o sistema;

A Cultura mobiliza; O Movimento articula;

A Cultura sem Movimento é caolha e o Movimento sem Cultura é aleijado.

(artigo foi avaliação final na disciplina Sociologia do Trabalho ministrada por Maria da Graça Druck, semestre 2005-1 na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas/UFBA. Revisado em junho de 2006).



O HIP HOP em sua origem se caracteriza como uma forma alternativa de diversão dos jovens negros nos guetos de Nova York, mas no decorrer do tempo vai ganhando um caráter militante devido à realidade racista e desigual existente no momento do seu surgimento.

Através da definição de Miranda (2005) podemos entender as diferenças existentes entre o papel das organizações de HIP HOP, e a ação dos HIP HOPPERS profissionais. A cultura quando transformada em movimento, ou seja, utilizada como instrumento de arregimentação política (PEREIRA, 1983) dos HIP HOPPERS tem um caráter revolucionário, um potencial transformador da realidade, portanto cultura e movimento se completam, mas a cultura pode andar sozinha, produzindo um caráter totalmente comercial.

Neste trabalho desenvolvo uma discussão do HIP HOP enquanto movimento sócio-cultural, trabalhando os elementos culturais como instrumento de mudança.

A atuação política das Posses de HIP HOP no Brasil os levaram a espaços que transcenderam suas comunidades a partir do final da década de 1990. Nesses espaços essas diversas posses de HIP HOP começaram a mobilizar-se a nível nacional, o que deu origem a uma série de organizações nacionais que temos hoje, como: MH2O (Movimento HIP HOP organizado), Nação HIP HOP Brasil, Revolução HIP HOP Brasil, MHHOB (Movimento HIP HOP organizado Brasileiro), Frente Nacional de HIP HOP, entre outras.

Um exemplo disso foi a realização do 1º Fórum Social Mundial na cidade de Porto Alegre no ano de 2001, onde os HIP HOPPERS articularam uma reunião nacional do segmento dentro do fórum. A partir desse encontro entre organizações de diversas regiões do país, deu início a articulação do 1º Fórum Nacional de HIP HOP, através de discussões locais, regionais e estaduais onde eram pautados os temas propostos para a etapa nacional que aconteceu com muito êxito no ano de 2003, novamente no Fórum Social Mundial em Porto Alegre, onde foram discutidos os seguintes temas: O HIP HOP como Movimento Político Social, O HIP HOP e a contracultura na atualidade, O HIP HOP e a educação, Estruturação e auto-sustentabilidade do HIP HOP, A Função Social e a Regionalização do HIP HOP. Foram criados também grupos de trabalho: HIP HOP x Movimento Negro, HIP HOP x ALCA, HIP HOP x Movimentos Sociais, HIP HOP: Ativista, Militante, Artista?, HIP HOP Gêneros (Homossexualidade, Mulheres), HIP HOP: Questão Étnica dentro do HIP HOP x Políticas públicas para jovens da periferia, HIP HOP x Movimento, Estilo ou Onda, HIP HOP x Drogas, HIP HOP x Violência e HIP HOP x formas de autogestão. Além disso, dentro do fórum aconteceram diversas atividades culturais contemplando todos os elementos movimento HIP HOP

Em 2005, a 5ª edição do Fórum Social Mundial volta para o Brasil. E acontece o 2º Fórum Nacional de HIP HOP. No acampamento Intercontinental da Juventude, onde ficavam a maioria dos participantes do fórum, foi criado um ambiente chamado “Cidade HIP HOP”, dentro do “Espaço Raízes”. Nesse espaço foram centralizadas todas as atividades do 2º Fórum Nacional de HIP HOP, tanto culturais como políticas. A rua que atravessava esse espaço dos HIP HOPPERS foi chamada de rua “Sabotage” em homenagem a este rapper que foi assassinado no ano de 2003. Neste 2º fórum as temáticas debatidas foram: Machismo, ativismo feminino, drogas, saúde, políticas públicas da juventude, organizações nacionais de Hip Hop, mídia alternativa, racismo e lutas sociais.

Nessas edições dos fóruns de HIP HOP, as organizações brasileiras tiveram contatos com HIP HOPPERS de vários outros países. Foi um importante espaço de organização e articulação política. Criou-se redes de contatos estaduais e regionais, que desembocaram em diversas ações conjuntas das Posses.

Hoje temos como fruto dessa rede de intercâmbio em diversas cidades do país as Casas de HIP HOP, onde os atuantes desse movimento atuam como arte-educadores propagando a cidadania através dos cinco elementos do HIP HOP. Essas casas são políticas locais, protagonizada pelos HIP HOPPERS, mas o contato com o movimento mais amplo permitiu a troca de experiências em que os militantes levaram para as suas cidades projetos que deram certos em outras regiões.

Temos também em forma de lei a “Semana do HIP HOP” em muitos municípios que acontecem geralmente no mês de novembro, com atividades culturais, debates, formação e palestras. Algumas cidades chegaram a um nível político tão organizado que possuem Conselhos Municipais de HIP HOP.

A atuação dos HIP HOPPER’s dentro da perspectiva de um movimento sócio-cultural leva a ações políticas transformadora da realidade. São as Posses um ambiente familiar, político, cidadão, cultural que torna jovens marginalizados em autores e interventores de suas realidades.



CAPÍTULO IV

A POSSE HAUSA



Integrantes da Posse Hausa



A Posse Hausa é uma organização de HIP HOPPERS negras e negros situada no ABC paulista. Com 14 anos de existência essa organização entrou para o calendário da luta negra brasileira por realizar intervenções nos espaços de transformação da realidade de jovens negras e negros utilizando-se dos cinco elementos do movimento HIP HOP.

O HIP HOP é considerado a base dessa organização, onde os participantes tiveram suas vidas modificadas no contato com essa manifestação cultural.

“HIP HOP com responsabilidade racial” é o lema que os membros da Posse Hausa carregam para atuar cotidianamente, e levam para as comunidades através dos cinco elementos culturais desse movimento o compromisso com o povo negro, resistindo a violência racial, exclusão e principalmente o genocídio da juventude negra.

Através de trabalhos nas comunidades, propagam a informação, conscientização e potencial transformador de uma juventude “marginalizada”.

Essa organização vem há 14 anos de existência contrariando as estatísticas que se referem a juventude negra, que são as maiores vítimas de violência e exclusão social no Brasil. Podemos considerá-los aquilo que o grupo de rap Racionais MC’s diz ser o “efeito colateral do sistema”[16], pois devido aos espaços que são reservados a este grupo social, eles conseguem driblar o tráfico, o crime, a alienação e apatia social, transformando a cultura em um “instrumento de arregimentação política” da juventude negra (PEREIRA, 1983).

Construir a auto-estima e valorização de negras e negros além de buscar referências históricas para esses HIP HOPPERS, é um processo que também incorpora a luta contra a discriminação racial, constituindo aquilo que Munanga (2002) chama de identidade projeto.

Entendo que “a identidade é um processo de construção de sentido, a partir de um atributo cultural, ou de um conjunto coerente de atributos culturais, que recebe prioridades sobre outras fontes”. (CASTELLS, 1999, p. 17 apud MUNANGA, 2002, p. 63).

A identidade se constrói socialmente a partir das relações de força, e dentro dessa concepção, Munanga (2002) define três tipos de identidade: identidade legitimadora, identidade de resistência e identidade projeto.

A Identidade legitimadora é aquela que busca racionalizar as formas de dominação social, reproduzindo a estrutura desigual da sociedade. A identidade de resistência é aquela produzida por grupos socialmente discriminados que lutam contra a opressão coletivamente. A identidade projeto é aquela em que os atores sociais utilizam-se dos elementos culturais a sua disposição, constroem uma nova identidade que redefine sua posição na sociedade se propondo a transformar a estrutura social, onde o indivíduo além de defender sua identidade, tem um projeto de mudança, para viver diferente e inverter o quadro da opressão.

Naturalmente, uma identidade que surge como resistência pode, mais tarde suscitar um projeto que, depois, poderá se tornar dominante no fio da evolução histórica e transformar-se em identidade legitimadora, para racionalizar sua dominação. (MUNANGA, 2002, p. 64).

A Posse Hausa se caracteriza dentro da identidade projeto pelo fato de construírem uma atuação que visa além do resgate da auto-estima de negras e negros, a mudança das estruturas de poder.

Antes de contextualizar o momento em que surge esta organização e suas principais ações, realizarei um breve relato sobre o contexto de formação do HIP HOP no ABC paulista.

Em 1988 na região do ABC paulista existiam muitos conflitos raciais. Um dos únicos mecanismos de diversão da população negra local eram os Bailes Black. Nessa região essas festas também se constituíram como um espaço de discussão política e construtor da identidade negra.

Não diferente da realidade dos guetos de Nova York, de São Paulo, e das periferias do Brasil, as favelas do ABC enfrentavam problemas de miséria, tráfico de drogas e racismo, o que transformou a região do ABC em um dos lugares mais violentos do estado de São Paulo. Por esses motivo jovens das periferias dessa região se inspiraram na luta de jovens negros das ruas do Bronx e incorporam à sua bagagem cultural o movimento HIP HOP como instrumento de mudança.



4.1

Surgimento da Posse HAUSA



Graffiti da Posse Hausa



Fundada em 26 de junho de 1993, a Posse Hausa já nasce se caracterizando como um instrumento de luta contra a discriminação racial, tendo como arma os cinco elementos do HIP HOP.

Frente ao ambiente racista existente na região do ABC na década de 1980, jovens negros se encontravam nos bailes black’s que aconteciam na região, nos clubes House, Xereta, Choppapo entre outros. Nesses espaços faziam amizades e tinham contato com manifestações da música negra que propagavam o orgulho “racial”. A partir desses espaços, pessoas que futuramente fundariam a Posse Hausa se conheceram.

Em entrevista com Honerê Al-amin Oadq, coordenador da Posse Hausa, tive a informação de que essa organização de jovens negras e negros surge após o diálogo com a prefeitura de São Bernardo do Campo, onde reivindicavam apoio a pista de skate localizada no centro da cidade.

A Hausa nasce da necessidade de obter junto a prefeitura local uma tomada de força para a pista de skate (Centro da Cidade) onde diversos grupos de rap, graffiteiros e b. boys / b. girls se encontravam. Normalmente isso se dava através de pilhas mais estava ficando difícil manter os custos. A partir de uma conversa com a administração da época, nós passamos a ter um contato maior com o departamento de cultura da cidade onde se fizeram planejamentos com as posses da cidade promovendo assim alguns trabalhos relacionados ao hip-hop tendo uma grande aproximação com as questões raciais. Foi lançado entre essa parceria o 1º livro de Hip-Hop do país chamado “ABC RAP” onde se continha a letra de rap dos grupos que faziam parte do projeto. Em um certo momento dessa parceria as “gangs” optaram em fundir uma posse que representasse a ansiedade dessa galera. Por ter um perfil racial (que se focasse no combate ao racismo e suas manifestações preconceituosas e discriminatórias) muitos não aderiram a proposta mesmo assim no dia de fundação tínhamos centenas de jovens, pretos/pretas para lançar a Posse Hausa no dia 26 de junho de 1993.(Entrevistado Honerê Al-amin Oadq – 25/09/2007).

Reunidos na pista de skate, os jovens HIP HOPPERS pensavam a formação dessa posse, que seria um instrumento político de organização, unidade e reivindicação dos anseios da galera. As Posses se caracterizam por realizar esse diálogo com o Estado e com as instituições na busca de seus interesses mantendo a autonomia em relação aos mesmos. A maioria delas cumprem e montam as agendas de suas “quebradas”, e a relação com o Estado se da através de um posicionamento crítico.



Posse Hausa reunida



A escolha do nome Hausa esta ligada a uma referência histórica da luta negra. Em 25 de janeiro de 1835 um grupo étnico muçulmano do norte da Nigéria chamado Hausa participou de um movimento pela libertação do povo negro no estado da Bahia, O Levante dos Malês, conhecido também como a Revolta dos Malês. O termo “Malê” não está ligado a Mali – o país, tanto que pesquisando o arquivo público do Estado da Bahia se descobre que apenas um pequeno número de escravos foi trazido deste país. No ioruba Imalê – designa muçulmano. Desta forma, Malê mais parece ser uma corruptela da palavra árabe MALEK (ABDULAZIZI, 2006). Por não aceitarem a submissão imposta pela escravidão, o povo Hausa travou diversos combates contra a condição de escravos. Por sua luta e resistência foram tomados como uma referência organizacional a ser seguida por esses HIP HOPPERS que deram o nome a sua organização de Posse Hausa. Segue abaixo o relato do grupo sobre essa escolha:

O nome Hausa foi uma sugestão do irmão Ketu e reforçada pelo irmão Afro X que na época do lançamento da Posse, defendeu o nome pra rapa presente na pista de skate. O fato de se escolher o nome Hausa há meu ver foi pela referência que esse grupo étnico localizado no norte do continente Africano ser responsável por diversos levantes desde que pisaram nessas terras no inicio do século XIX. Eram muçulmanos, dominavam diversas línguas entre elas o árabe que foi importante para as articulações dos levantes. Sua postura diferenciada (não se entregando aos vícios e prazeres ilícitos ao crente) não admitindo ser submisso a qualquer outro ser que não seja Deus o Altíssimo, ocasionaram constantes combates a sua condição de escravizado. Tinham faro para o comercio já que pertenciam a uma região que representava uma rota de comercio entre a Ásia / África, tendo sua língua milenar reconhecida por diversas regiões e povos do mundo. Sua cultura e conhecimento não tinha limites e, portanto eram vistos como uma grande ameaça ao governo da época. No Brasil uma boa parte dos Hausas se tornavam “negros de ganho” por suas habilidades no comercio favorecendo assim a articulação e a divulgação do islam entre os pretos /pretas fortalecendo as frentes de batalha nos levantes. Os Hausas eram um dos grupos pertencentes ao Levante dos Malês, em 25 de janeiro de 1835 onde um grupo expressivos de escravizados, em sua maioria africanos muçulmanos quase tomaram a capital do país tendo fracassado pelo principal motivo de terem sidos traídos por alguns dos participantes da articulação perdendo assim um fator determinante para o combate que seria o fator surpresa.

Quando foi descoberto a forma organizada, eloqüente, e desafiadora como foi pensado o levante que de longe foi uma articulação sem pé nem cabeça e sim uma articulação política de tomada de poder por todos os meios necessários, muitos dos malês, nagôs e outros grupos que já eram muçulmanos desde África ou se converteram durante a travessia ou no Brasil foram deportados, outros tantos chicoteados, e outros mortos, mais ficou na cabeça dos colonizadores o medo e o terror de um grupo como esse tivesse vencido a batalha.

Essas referências vieram a tona, pois era um grupo diferenciado que seu poder estava em sua fé em Deus, no seu conhecimento, na sua disciplina e isso será e continuará sendo um desejo da organização Posse Hausa. Que ela consiga através do conhecimento, fé e disciplina mostrar dentro e fora dos palcos uma postura diferenciada que mude a vida das pessoas para melhor não admitindo a condição de submissos a qual essa sociedade insiste em nos qualificar. (Entrevistado Honerê Al-amin Oadq – 25/09/2007).



Povo Hausa



Em janeiro de 2007 a posse realizou em parceria com a prefeitura da cidade de São Bernardo do Campo e com o Centro de Divulgação do Islam para América Latina o Ciclo Cultural “O Levante dos Malês: cultura, identidade e resistência negra no Brasil. Esse ciclo cultural contou com apresentação dos grupos de RAP da Posse Hausa, exposição de fotos, textos e documentos sobre o levante e palestras. Segue abaixo duas imagens da exposição.



Honerê Al-amin Oadq nas pickup’s, soltando um som na exposição “O Levante dos Males”



Membros da Posse Hausa na exposição “O Levante dos Males”



Através da busca de conhecimento sobre a história dos africanos no Brasil, os membros da posse acumularam conteúdo para a socialização dessas experiências com outras organizações de HIP HOP e com a sociedade civil em geral.

Organizar-se através de uma Posse segundo o grupo significa constituir um laço familiar de solidariedade entre os seus membros, através de valores que visem melhorar suas condições de vida e a do próximo.

O que temos em verdade é a sensação de uma grande família africana onde um precisa cuidar do outro onde rimos juntos e choramos juntos quando preciso. Conselhos mútuos que visem uma melhora em nossas condições de vida. A exemplo que no período em que fumava cigarro era proibido minha presença nas reuniões só podendo voltar as discussões após o termino do cigarro sem contar os olhares de reprovação. Isso poderia ter dois efeitos. Ou ia me distanciar ou largaria o vicio para fazer o que gostava e o que entendia ser necessário e a segunda opção prevaleceu e prevalece até hoje. INDICAR O QUE É LICITO E PROIBIR O ILÍCITO é uma pratica milenar dentro do islam e indiretamente isso está em nosso convívio. (Entrevistado Honerê Al-amin Oadq - Entrevistado Honerê Al-amin Oadq – 25/09/2007).



A Posse Hausa não é uma organização de mulçumanos, porém, alguns membros do grupo se converteram ao islã, e vêem na religião um ponto de equilíbrio em relação aos problemas sociais. Mesmo que todos os membros não sejam adeptos da religião, vários de seus valores são difundidos no comportamento do grupo, como o posicionamento crítico em relação ao uso de qualquer tipo de drogas, a valorização da família e o companheirismo.

O Islam pra mim passou a ser minha religião quando percebi que é a única forma de preservar e proteger a família negra das mazelas que vivenciamos a muito tempo já que muitos desse problemas como gravidez indesejada, aborto, consumo de drogas, entre tantas outras coisas que os brancos nos imposicionam com sua exclusão se afastam de seus adeptos devido aos princípios que a religião detém. Esse é o maior medo dos que dominam! Quando pararmos de usar suas drogas, de agir do jeito que eles querem passaremos a mudar tudo isso com atitude, fé e disciplina. O debate e longo... (Entrevistado Honerê Al-amin Oadq – 25/09/2007).

Existe uma disciplina construída entre os membros do grupo, que vai no caminho de garantir a vida e novas expectativas enquanto HIP HOPPERS, contrariando as estatísticas de sustentação de tudo aquilo que leva a marginalidade da juventude negra.

Um dos principais objetivos da Posse Hausa é atuar para a ampliação dos adeptos do movimento HIP HOP e da consciência racial. O grupo busca a formação política e social dos HIP HOPPERS e combate o uso de todos os tipos de drogas, licitas e ilícitas, sendo esse um critério para ser membro da posse. Nino Brown, um dos pioneiros do HIP HOP no Brasil, foi um dos fundadores da Posse Hausa, tido como figura paterna e respeitado pelos membros do grupo, o que fez com que os mesmos construíssem um novo olhar sobre a figura da família.

As principais bandeiras da Posse Hausa é a expansão de um HIP HOP nas ruas, onde ele nasceu, sem perder suas características, promovendo a luta contra o racismo, genocídio da juventude negra, pelos direitos das mulheres negras e toda forma de exclusão. Outra característica sempre presente é o combate as drogas, vistas como uma das principais armas de extermínio da população negra.

A Posse Hausa se constitui um exemplo de como o movimento HIP HOP tem um potencial transformador dando elementos para a juventude intervir na sua própria realidade.

O HIP HOP exerceu um papel construtor da identidade negra entre os membros da Posse Hausa, fazendo-os ter orgulho da cor de sua pele através da desconstrução de estigmas racistas produzidos sobre a figura do negro na sociedade.

Segundo Munanga (2002), os valores dominantes na sociedade faz com que grupos marginalizados incorporem a imagem de inferioridade forjada sobre eles, constituindo uma baixa estima. A auto-depreciação torna-se um mecanismo de dominação, e o HIP HOP vai na contra-mão dessa ação, desconstruindo a imagem negativa sobre os negros, dando visibilidade a luta e valores da população negra.

Ser um HIP HOPPER na Posse Hausa significa ter responsabilidade com um movimento político-cultural que serve como instrumento de atuação nas comunidades, tanto para diversão como para a mudança social, é um dever utilizar-se dos cinco elementos desse movimento para transformar a vida das pessoas. “Ser HIP HOPPER é falar o que vive, o que sente, expressando com seu jeito particular como você enxerga o mundo que o cerca”. (Entrevistado Honerê Al-amin Oadq – 25/09/2007).

Devido a diversidade de termos utilizados dentro do movimento HIP HOP para se referir aos negros da diáspora: preto, negro, afro-descendente, questionei o grupo sobre qual definição melhor os representaria. A resposta foi negro, por tomar como referência a luta pan-africana de Bantu Steve Biko, onde o mesmo torna o termo negro, que foi o nome dado aos africanos pelos brancos, “uma forma pejorativa para auto-afirmação positiva dos africanos”. (Entrevistado Honerê Al-amin Oadq – 25/09/2007).

Fazer HIP HOP com responsabilidade racial para a Posse Hausa é construir ações que interfiram na mudança da realidade do povo negro, atuação que vai além das discussões. Em um dos espaços em que realizei pesquisa de campo o coordenador da Posse teve a seguinte fala: “Por ser pan-africanista vejo o HIP HOP não como um movimento norte-americano, mas como um movimento de africanos da diáspora”( Honerê Al-amin Oadq – 04/04/2007). Pan-africanismo é um movimento que surge no início do século XX com caráter internacionalista, buscando a unidade de todos os negros da diáspora, tendo como referência o continente africano.

Os membros da Posse buscam o conhecimento como um elemento que da sentido a prática dos outros quatro elementos do HIP HOP. Sem o conhecimento o HIP HOP para eles vira um produto de mercado, sujeito ao fracasso. O conhecimento é para o grupo o elemento que mantém viva a essência do HIP HOP.

Os atuantes das Posses no movimento HIP HOP, e mesmo os HIP HOPPERS que não estão em nenhuma organização, buscam o conhecimento através de reuniões de formação, leituras de livros e vivenciando a realidade como ela é; são detentores de um senso crítico, construindo um discurso contra-hegemônico da sociedade, refletindo o intelectual orgânico de Gramsci.

Gramsci (1968), afirma que a dominação não se da somente nas relações de produção, no campo econômico, ela é introduzida também através da ideologia. A ideologia segundo ele é uma forma de dominação que extrai a própria cultura por não ser estranha as pessoas, ou seja, ela absorve a cultura e a devolve em forma de dominação, educando a sociedade através de símbolos e valores que reproduzem as estruturas de poder. Em oposição a estas estruturas de poder hegemônicas surgem os movimentos contra-hegemônicos. A hegemonia burguesa para Gramsci significava o predomínio ideológico dos valores e normas sobre as classes “subalternas” através das idéias dos intelectuais, mas essas classes têm a capacidade de promover uma consciência de grupo, na ação de intelectuais orgânicos, onde disputarão com a ideologia dominante através de uma ideologia contra-hegemônica o controle cultural.

Com quase uma década e meia de existência, a principal ação da Posse Hausa hoje é realizar atividades de HIP HOP nas ruas, quinzenalmente, com o objetivo de difundir o HIP HOP através dos seus cinco elementos como um instrumento de transformação da realidade de uma juventude negra marginalizada. Produz também os “fanzines”, instrumento alternativo de comunicação utilizado para difundir o conhecimento dentro do movimento. Estão presentes na maioria dos espaços de discussão dos movimentos negros, propondo através de uma perspectiva HIP HOPPER mecanismos de combate a discriminação racial. Nos últimos dois anos atuaram principalmente na construção do Encontro Nacional de Juventude Negra.

Segue Abaixo uma letra de RAP de um dos grupos da Posse Hausa.



Grupo: Banzu Bantu

Música: Reparações (2006)



Sociedade hipócrita, injusta que cresceu a nossas custas e agora diz que não nos deve nada!



Que palhaçada acreditar que não viria o troco Banzo Bantu até o osso pelo nosso povo!



Estou esperto, atento, me articulando e acredito que o nosso momento está chegando!



ACORDE POVO NEGRO! EXIGA SEUS DIREITOS! AÇÃO CAUSA EFEITO! RENOVE SEU CONCEITO!



Há muito tempo nos jogaram nas sarjetas depois de ter nos usado no trabalho escravo nas fazendas



E até hoje vivemos seu holocausto negro sem indenização retratação ou algum direito



Chegou nosso momento de exigir reparações! Chegou nosso momento de formar opiniões!



Não mais importa o que se vai pensar o que me importa e como vão me reparar!



Ações afirmativas, políticas reais na expectativa de honrar nossos ancestrais



Que há tempos atrás sofreram demais na mão deles loucos, porcos animais!



Banzo Bantu – posse hausa vem pra trinca! Honerê um Malê que segue a herança Hausa!



Pelas reparações tem muito que articular! Nossas ações precisam se aprimorar!



Indenização não se faz com pão e circo, pois é assim que costuma agir o nosso inimigo



Não aceito isso truta de forma alguma! POR ISSO ME MANTENHO FIRME E FORTE NA LUTA!



REFRÃO



INDENIZAÇÃO IRMÃOS EU QUERO É MAIS!



MEDIDAS DESIGUAIS PRA IGUALAR OS DESIGUAIS!



INDENIZAÇÃO IRMÃS EU QUERO É MAIS!



MEDIDAS DESIGUAIS PRA IGUALAR OS DESIGUAIS! (bis)



É só olhar a história para poder entender a complexidade que estamos a debater



Imagine vc disputando uma corrida, e as desigualdades já começam na saída



Seu adversário já sai com uma volta de vantagem não pelo seu mérito e sim pela sacanagem



Imagine essa questão na área da educação quantos negros e negras vive essa situação?



Enquanto eu trampo feito louca pra me sustentar e tenho pouco tempo pra poder estudar



Você só quer me esnobar com sua condição mais se assusta quando falo em reparação!



Porque no fundo você sabe que é responsável por cada gota de sangue negro derramado



Fruto de seus antepassados que criaram formas de beneficiar os brancos ao longo da história



A estatística ta ai, não dá pra negar, você não que discutir, e nem avaliar,



Não vai adiantar fugir da questão existe muita pressão pela reparação



Então envolvido estarei até o pescoço, pra resgatar tudo que roubaram do meu povo!



Mulheres negras como sempre na linha de frente envolvendo a gente em ações conscientes



Pois elas também sentem entre outras questões são as primeiras nas listas de exclusões



Sociedade está que precisa mudar! E pelas reparações quero ver os irmãos cantar!



REFRÃO



INDENIZAÇÃO IRMÃOS EU QUERO É MAIS!



MEDIDAS DESIGUAIS PRA IGUALAR OS DESIGUAIS!



INDENIZAÇÃO IRMÃS EU QUERO É MAIS!



MEDIDAS DESIGUAIS PRA IGUALAR OS DESIGUAIS! (bis)



Através dessa letra de RAP podemos observar um discurso político, contra-hegemônico, crítico presente nas vozes dos rappers do grupo em relação as desigualdades raciais e o processo histórico da escravidão. Além disso, existe uma proposta de mudança desse desequilíbrio racial, através das políticas de reparações.

Há quatro processos que podemos identificar no movimento HIP HOP enquanto construtor de identidade negra. O primeiro seria o processo em que a partir da realidade comum vivenciada por esses grupos negros, os elementos culturais serviram como instrumentos onde simbolicamente se expressa através da dança, música e artes plásticas um desabafo, formando uma crítica social. Para realizar a crítica social, além da experiência de exclusão que vivenciam cotidianamente, procuram conhecer os efeitos históricos do racismo, suas origens, a luta negra, e referências históricas de resistência, esse seria o segundo processo. Conhecendo a história passam a entender melhor ainda sua realidade, e ao casarem o histórico com sua atualidade, fortalecem o sentimento de pertencimento a um grupo étnico, criando uma auto-estima e aumentando os anseios de mudança através da negritude, o terceiro processo. Ao se auto-afirmar, manifesta-se o quarto processo, onde transformam a cultura em um instrumento de arregimentação política do negro (PEREIRA, 1983), citado no segundo capítulo desta pesquisa.

Hoje a maioria desses Hip Hoppers que fundaram essa discursividade negra através da Posse Hausa já constituíram famílias, boa parte deles entraram na universidade, se especializaram, e continuam tendo vínculo com a organização, tendo expectativa que a nova geração de Hausas continuem essa luta que iniciaram.



4.2

Carta Aberta ao HIP HOP Brasileiro: O ENJUNE



“60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial, a cada 4 pessoas mortas pela polícia 3 são negras, nas universidade brasileira apenas 2% dos alunos são negros, a cada quatro horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo, aqui quem fala é primo preto, mais um sobrevivente” (Introdução feita por Primo Preto na música “Capítulo 4, versículo 3” do grupo Racionais MC’s -1997).

Em 1997, quando o grupo de RAP Racionais MC”s lança o seu álbum “Sobrevivendo no Inferno”, o discurso crítico da violência racial vivida cotidianamente pela juventude negra estava presente em suas letras. Assim como anos que antecederam e sucederam a música citada acima, essa realidade não mudou, os mecanismos de exclusão criam novas configurações acompanhando a dinâmica da sociedade, e a juventude negra continua marginalizada. Dez anos depois, em 2007 a juventude negra do Brasil consegue construir um Encontro Nacional de Juventude Negra, o ENJUNE, onde a pauta também é a violência e exclusão racial vivida por este grupo.

Cansados de serem pautados por congressos, seminários, conferências, pesquisas, este grupo busca construir um movimento protagonizado pela juventude negra, onde a mesma discuti suas demandas presentes na sociedade, sua realidade e suas expectativas. A juventude negra a partir daí busca autonomia referente a presença que sempre tiveram na fala do outro, buscando falar sobre si própria.

O HIP HOP se caracteriza por ser um movimento que sempre pautou problemas vivenciados cotidianamente por jovens negras e negros. No final do ano de 2005, início do ano de 2006, jovens negros de diferentes regiões do Brasil começam a idealizar a construção de um Encontro Nacional de Juventude Negra (ENJUNE), a princípio o nome era Encontro de Juventude Afro-descendente (ENJA), mas a partir de uma discussão sobre o termo utilizado por esse jovens, trocou-se o nome do encontro, substituindo o afro-descendente por negro. Essa idéia surge no estado de São Paulo, e passa a ser discutida por organizações negro-juvenis de outros estados.

O Encontro Nacional de Juventude Negra foi uma proposta construída coletivamente por diversos setores das juventudes negras do Brasil, utilizo-me do plural aqui pelo fato de que esse grupo é diversificado, e não homogêneo, mas há uma unidade na construção dessa mobilização, a realidade que vivenciam enquanto jovens negras e negros.

Estes jovens construíram um projeto para a realização desse encontro, onde fundamentam a realidade vivenciada pela juventude negra justificando a importância da realização do ENJUNE, esse projeto chama-se Kit Mobilização[17].

Devido a essa atuação do movimento HIP HOP, a Posse Hausa elabora uma ”Carta aberta ao HIP HOP Brasileiro”, onde convocam os militantes desse movimento para a construção desse momento histórico:



CARTA ABERTA AO HIP-HOP BRASILEIRO



Salve parceiros e parceiras de palco! De asfalto!





Estamos no corre da construção do Encontro Nacional de Juventude Negra. Uma correria que vem sendo feita a mais de um ano e que estamos em previas de sua realização (Julho / 2007) Será muito importante poder contar com jovens negros e negras nesse processo, pois independente da região onde estamos e de suas diferenças, o genocídio dessa parcela da juventude brasileira vem se dando de forma alarmante e nós, que estamos no topo da cadeia alimentar desse sistema racista, machista e capitalista, precisamos criar formas de responder nacionalmente, das bases para cima, a toda violência racial a qual estamos submetidos. Por isso venho mais uma vez nessa lista, chamar nossos irmãos e irmãs para correrem por esse objetivo. Nos anos 90, o Hip-Hop Brasileiro teve o grande papel de levar as favelas brasileiras, as comunidades periféricas, nossa auto estima fazendo com que negros e negras assumissem sua cor e seu papel na sociedade, levou a conhecimento de todos sobre nossas lideranças, nacionais e internacionais (Malcolm X, Stive Biko, Angela Davis, Dandara, Zumbi, Abdias do Nascimento, Clementina de Jesus, etc) Lançou nacionalmente nomes que direta ou indiretamente influenciou na vida de nossa juventude como Racionais MC`S, DMN, Sistema Negro, Comando DMC, Charylaine, Lady RAP, MV BILL, Nega Gizza, GOG, Cambio Negro, Pose Mente Zulu, ParteUm, Clan Nordestino, etc., principalmente os anônimos que sempre estiveram segurando os alicerces do movimento sendo linha de frente desse processo todo. As Posses e fóruns de Hip-Hop espalhados pelo Brasil que mantiveram e continua mantendo o movimento vivo resgatando esses valores e repassando a nova escola a importância de preservar nossa história, O Hip-Hop fez de seus elementos a válvula de escape para nossa juventude se expressar e resistir a tudo isso. Na minha visão está na hora do Hip-Hop Nacional mais uma vez cumprir seu papel que a conjuntura nos coloca:



PRECISAMOS REAJIR A VIOLENCIA RACIAL!



POR TODOS OS MEIOS NECESSÁRIOS!



Mostrar a nossa sociedade que não é coincidência ser barrado em locais onde invisivelmente consta a placa PROIBIDO A ENTRADA DE NEGROS / NEGRAS, ver irmãs morrendo por abortos mau feitos ou ainda induzidas a praticar a esterilização em plena idade fértil, estarmos no topo das estatísticas relacionadas ao genocídio institucionalizado, desemprego, assistência a saúde, moradia, educação, cultura, falando em cultura, vocês mesmos virão que, quando o estado viabiliza algo a nossa categoria artística, os boys gelam, ficando estéricos na mídia e nos ataca pois não estão acostumados a ver o povo tomando de assalto o que é seu por direito. Precisamos nos organizar nos espaços onde nossa juventude se encontra e deixar de vez por todas a idéia de que um irmão preto morto, na proporção que isso vem ocorrendo, é uma coincidência do destino! É GENOCIDIO MESMO! A resistência de garantir nossa entrada nos espaços de formação garantidos pelo estado como universidades, cursos profissionalizantes, etc., Não é por incapacidade nossa não! É O MEDO DA ASCENSÃO DOS PRETOS E PRETAS NOS ESPAÇOS DE PODER!

Por essas e tantas outras questões que influenciam diretamente nosso dia a dia, peço a todos os guerreiros e guerreiras de plantão para assumirem essa demanda! Fazer mais uma vez dos palcos, nosso mecanismo de mobilização em massa de todos que não toleram mais essa situação vivida nas periferias brasileiras. De se organizar nos seus espaços convocando nossa juventude ao ENJUNE trazendo sua reflexão sobre os temas que o encontro se propõe a discutir, produzindo pré-encontros regionais e estaduais, formando fóruns de juventude negra para por em prática as resoluções vindas da própria juventude... É desse jeito! (...) (Carta Aberta ao HIP HOP Brasileiro, 26 de abril e 2007. In: http://possehausa.blogspot.com/2007/04/carta-aberta-ao-hip-hop-brasileiro.html).



Chamando o HIP HOP para a responsabilidade nesta construção, a carta carrega como primeira expressão uma imagem de um grafite onde um jovem negro chora a imagem refletida em seus olhos, a opressão racial e a atuação de setores racistas, como aparece no olho direito a Ku Klux Klan[18]. Pautam o genocídio da juventude negra como toda a forma de exclusão racial que torna estes jovens vulneráveis a violência, crime, drogas e qualquer tipo de marginalidade. Eles utilizam como exemplo a atuação do movimento HIP HOP como construtor da identidade negra nas favelas e como um instrumento de luta contra esse sistema que chamam de racista, machista e capitalista. Por agregar a juventude negra, o movimento HIP HOP é convocado pelos Hausas para reagir a violência racial, policial e ao racismo simbólico da sociedade brasileira, como citam nos exemplos das placas invisíveis.

O ENJUNE surge a partir das discussões de jovens negros que viam à necessidade da elaboração de um projeto político da juventude negra para a sociedade. Levando em consideração todas as dificuldades enfrentadas por jovens negras e negros cotidianamente, e que as políticas públicas que vem sendo implantadas para a juventude não vem atingindo suas demandas e necessidades, alguns grupos de jovens negros pensaram o ENJUNE como um projeto onde a juventude negra se coloque como protagonista do seu próprio processo. Estando cansada de ser pensada, se organiza de forma autônoma, suprapartidária e afrocentrada, buscando referências africanas para constituir ações e práticas para si mesma, se fortalecendo nas bases. A juventude negra cria, articula e pensa suas políticas. O objetivo principal do ENJUNE foi a construção de ações coletivas pela juventude, para diminuir o preconceito e o racismo, por isso propõe uma agenda dos eixos temáticos (especificados mais abaixo), com projetos a serem desenvolvidos de maneira autônoma a nível local, dialogando com organizações não governamentais, instituições públicas e etc.

Os 14 eixos temáticos de discussão desse encontro foram: I) Cultura, II) Segurança, vulnerabilidade e risco social, III) Educação, IV) Saúde da População Negra, V) Terra e Moradia, VI) Comunicação e Tecnologia, VII) Religião do povo negro brasileiro, (VIII) Meio Ambiente e Desenvolvimento sustentável, IX) Trabalho, X) Intervenção nos Espaços Políticos, XI) Ações Afirmativas e Políticas de Reparações, XII) Gênero e Feminismo, (XIII) LGBT: Identidade de Gênero e Orientação Sexual e XIV) Inclusão de pessoas com deficiência. Essas discussões buscavam inserir o ponto de vista e ações propositivas da juventude negra de forma transversal.

O ENJUNE propõe ser um instrumento de socialização das ações organizadas pela juventude negra a nível nacional, contendo em seu projeto político a formação da rede “Multimídia Afro”, que terá como objetivo buscar todas as resoluções locais e fazer com que essas informações cheguem a todos os espaços podendo ser socializadas com as bases.

Honerê da Posse Hausa (um dos coordenadores nacionais desse encontro, e um dos idealizadores do mesmo) em sua fala no primeiro Encontro De Juventude Negra do Interior Paulista ocorrido na cidade de Salto – SP no dia 4 de abril de 2007, onde foi fazer a apresentação do que seria o ENJUNE para os novos adeptos desse projeto, afirmou que falar em organização da juventude negra para levantar as suas demandas não significa que o dialogo com as outras pessoas do movimento esteja fechado, mas construir uma ação em que a juventude negra quer ser protagonista do seu projeto político e buscar colocá-lo em prática. As resoluções do ENJUNE podem ser reconhecidas por outras articulações. A questão é que a juventude negra não quer ser mais eixo temático, ela quer se discutir, tendo como objetivo no ENJUNE não só um fórum de discussão, mas a formação de uma rede que socialize as informações. Ressalta a importância do papel das posses através de suas ações na mudança da realidade de jovens negros, sendo o HIP HOP um movimento que salva, e que a juventude negra que esta pautando o debate hoje é em sua maioria do HIP HOP, que vem sendo grande instrumento de comunicação que resgatou a auto-estima e derrubou as dúvidas sobre a identidade.

Para os Hausas “sem o Hip-Hop o processo do ENJUNE estaria sedado ao fracasso, pois o RAP ainda é a voz dos pretos e pretas da periferia. Sua participação na divulgação, organização, etc foi determinante”. (Entrevistado Honerê Al-amin Oadq – 25/09/2007).

Como movimento negro contemporâneo que agrega a juventude negra, o HIP HOP, assim como outras manifestações da cultura negra ao longo da diáspora, vêm cumprindo o papel de articular politicamente a luta contra o racismo.



4.3

Caminhos até o Encontro Nacional de Juventude Negra



Diversas organizações de juventude negra do Brasil foram mobilizadas em um projeto desenvolvido no período de dois anos. Articuladores de todos os estados viajaram o Brasil para construir um encontro representativo das juventudes negras.

Até a realização deste encontro nacional nos dias 27, 28 e 29 de julho do ano de 2007, foram construídas mobilizações municipais, regionais e estaduais. Todas essas instâncias realizavam discussões sobre os 14 eixos temáticos em seus pré-encontros, encaminhando documentos propositivos para a etapa estadual, onde os eixos temáticos eram discutidos novamente levando em consideração as propostas dos municípios e regiões, até chegar em um documento estadual da juventude negra que seria encaminhado para o encontro nacional.



Plenário do Encontro Nacional de Juventude Negra



Dentro desse processo eu acompanhei a maioria das discussões regionais do estado de São Paulo. Como trabalho aqui nessa pesquisa com a Posse Hausa, irei fazer a discussão do encontro do ABC Paulista que ocorreu nos dias 05 e 06 de maio de 2007 na cidade de São Bernardo do Campo.

O encontro aconteceu no projeto meninos e meninas de rua, grande parceiro do movimento HIP HOP e de atuação da juventude negra. O encontro foi aberto com uma roda de discussão sobre a luta da juventude negra, seguido da divisão dos participantes em grupos menores para a discussão dos eixos temáticos, atividades culturais e um ato realizado no centro da cidade em repúdio ao genocídio da juventude negra, fazendo parte de uma campanha nacional “Reaja ou será morto! Reaja ou será morta!”.

Diferente de outros encontros realizados nas outras regiões do estado, o pré-enjune ABC não foi organizado em formato tradicional, através de mesas e palestrantes. Foram realizadas rodas, onde todas as pessoas se olhavam, inseridas em um mesmo espaço. A idéia era romper com esse modelo dominante de realização das atividades, e ao mesmo promover uma ação “mais africana”, onde as rodas eram o espaço de troca, dialogo e transmissão de conhecimento.



Um encontro com caráter afrocentrado, por ter na maioria das falas e propostas uma perspectiva pan-africana, buscando como referência a luta negra mundial. O encontro até o início da passeata programada estava ocorrendo tranqüilamente. A alimentação foi uma ação coletiva feita ali no espaço onde estava se realizando o encontro.

As 15h:00 desse primeiro dia, os participantes do encontro tomaram as ruas do centro de São Bernardo do Campo através de uma ato em repúdio ao genocídio da Juventude Negra. Carregavam faixas com as frases: Reaja ou será morto!, Reaja ou será morta!. Juventude Negra contra a violência policial, contra o genocídio da juventude negra, contra a redução da maioridade penal e frases de referências históricas negras.



Foto da manifestação do Pré – ENJUNE ABC



A manifestação chamou a atenção das pessoas que andavam pelo centro de São Bernardo do Campo. A guarda de trânsito fechava as ruas para a passagem da manifestação, mas não demorou muito para que a polícia se sentisse intrigada com este ato.



Foto da manifestação do Pré – ENJUNE ABC



No meio do ato os manifestantes são abordados pela polícia que exigiu o fim da manifestação. A juventude negra presente contra-argumentou querendo fazer valer a liberdade de expressão que teoricamente existe. A polícia militar agrediu alguns manifestantes exigindo as entregas dos cartazes que denunciavam através de frases a opressão existente em relação aos jovens negras e negros.

Devido à contra-argumentação dos manifestantes, alguns militantes foram presos, o que fez com que todas as outras pessoas que participavam do ato ocupassem a frente da delegacia.



Foto da manifestação do Pré – ENJUNE ABC



Ficou explicita a perseguição sofrida cotidianamente por esses jovens, a maioria HIP HOPPERS que denunciam em suas formas de expressão o racismo simbólico, além dos mecanismos de opressão como a violência policial.

Durante o período que ficamos na frente da delegacia a juventude negra demonstrou o seu potencial de organização e intervenção política, passaram pela delegacia advogados de movimentos sociais, parlamentares e assessores, posses de HIP HOP, organizações políticas juvenis, sindicatos e outras organizações da sociedade civil. Os manifestantes foram liberados no fim da noite do dia 05.



Foto da manifestação do Pré – ENJUNE ABC



Foto da manifestação do Pré – ENJUNE ABC – Porta da delegacia.



Foto da manifestação do Pré – ENJUNE ABC - porta da delegacia.



No mesmo dia fui a virada cultural da praça da sé, assistir um show aberto dos Racionais MC’s. O show anterior foi o do grupo Nação Zumbi, onde havia um grande público universitário usando drogas, e depredando o patrimônio público. Quando esse show acabou o público universitário se retirou para outras atividades dessa virada, e a praça da Sé foi ocupada pela juventude negra, ansiosa para assistir o Show dos Racionais. O que acontecia naquele momento não era diferente do que estava acontecendo anteriormente, pelo público universitário majoritariamente branco. Mas a reação da polícia militar foi diferente com o público periférico de maioria negra, assim que o show dos Racionais começou a tropa de choque foi pra cima, expulsando esses jovens da região central da cidade. A praça foi tomada por bombas e cacetetes, o grupo de RAP de jovens negros que estava no palco foi desrespeitado pela polícia militar, assim como já foram em diversos shows.

No domingo, dia 06, as discussões ocorreram normalmente, com mais energia para transformar esse sistema coercitivo.

Segue abaixo a percepção do coordenador da Posse Hausa em relação a repressão ocorrida na manifestação:



Nosso Pré ENJUNE aqui no ABC tomou proporções que para muitos servirá de reafirmação que o estado brasileiro, através de seus mecanismo de repressão, não aceitaram da nossa parte, do povo negro, da juventude negra, uma reação a violência racial, o medo se espalha no sentido de que mais pessoas se despertem dessa anestesia racista que faz com que muitos ainda não enxerguem que esse genocídio que vem acontecendo nas periferias tem objetivos específicos e tem ligação direta com a nossa característica étnico / racial. Essa é a segunda vez que invadimos as ruas de São Bernardo do Campo pára Denunciar o Racismo! Em 97 Fomos 300 jovens na mesma avenida, pautar as demandas da juventude Negra. 10 anos depois, Um numero menor de pessoas mais com uma demanda racista muito mais genocida para denunciar e combater, viabilizamos uma sena que se repete no resto do país. Onde quer que se junte negros e negras, seja em suas manifestações culturais, seja em manifestação legitimas, estaremos sujeitos ao enfrentamento ao estado que manda seus cães de guarda para espancar, inibir e demonstrar seu ódio racial e sua indignação a qualquer levante que o povo negro fizer. O pior desse processo todo onde vivenciamos nesse ultimo sábado 5/5/2007 e ver a argumentação da parte da policia que se sentiu “OFENDIDA” por ter sido chamada de racista. Talvez a corporação precisa acompanhar mais suas próprias ações e rever o que as estatísticas nacionais e regionais apontam.

Quem tem o direito de estar ofendido e reagir a violência racial SOMOS NÓS que chegamos a ser 70% de seu explicito genocídio. Não bastando, esse estado nos nega o básico para o desenvolvimento de nosso povo como trabalho, saúde, moradia, EDUCAÇÂO, etc. Vende uma falsa idéia de “planejamento familiar” mais que no fim das contas prevê uma esterilização das mulheres negras em longa escala e em plena idade fértil, diminui a maioridade penal hoje para 16, e amanhã só Deus sabe mais em breve já nasceremos enjaulados se é que nos darão o direito de nascer, Facilitam na cara larga a chegada das drogas e armas nas favelas colocando mais lenha nesse caldeirão desigual objetivando com isso desenvolver justificativas para suas ações genocidas. Apesar de tudo isso, ainda não nos dão o direito de nos manifestar e ficam “indignados” com as acusações!!! Me poupe... ESSE ESTADO SÓ SERVE PARA PROTEGER NÃO NEGROS! Se são brancos nas ruas para protestar o que for, eles fazem escolta... Pra preto/preta a política é BORACHADA e cadeia. Mais para a infelicidade dos grupos racistas desse país estaremos cada vez mais nas ruas denunciando o racismo e suas manifestações discriminatórias e preconceituosas! Lamento Informar que isso não fará com que nós deixemos de REAGIR A VIOLENCIA RACIAL POR TODOS OS MEIOS NECESSÁRIOS!



Honerê Al-amin Oadq

Posse Hausa - minha família, minha base!

MNU De onde sou centralizado politicamente!

ENJUNE Uma reposta coletiva a violência racial!

(Carta aberta à sociedade Pela liberdade de manifestação da juventude negra, 08 de maio de 2007. In: http://possehausa.blogspot.com/2007_05_01_archive.html).



Os conflitos não impediram que os debates e a construção de propostas da juventude negra para a intervenção na sociedade fossem concretizados no domingo. A reafirmação da perseguição policial com esta juventude no ato deste encontro repercutiu a nível nacional, e trouxe novas energias para lutar contra a violência policial.



Concretizados a nível estadual os pré-encontros regionais e municipais, realizou-se nos dias 06, 07 e 08 de julho o pré – encontro estadual de juventude negra de São Paulo. Nesse espaço foi-se discutidos os eixos temáticos do encontro a partir das propostas construídas nas regiões para o encontro nacional realizado na cidade de Lauro de Freitas – BA, no mês de julho, o sonho de diversas organizações das juventudes negras foi concretizado. Hoje existe um documento representativo dos anseios destes grupos a nível nacional. A partir deste encontro foi criado o Fórum Nacional de Juventude Negra, que terá lançamento em maio de 2008. Cabe a este fórum ser um instrumento de dialogo permanente das juventudes negras, além de colocar em prática as propostas construídas no ENJUNE.

O ENJUNE reuniu em Lauro de Freitas cerca de 700 pessoas de 17 estados do país. Alagoas, Sergipe, Paraná, Amapá, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Sul, Rondônia, Rio de Janeiro e São Paulo estiveram representados nas discussões do ENJUNE. Estes estados levaram suas propostas elaboradas em seus encontros estaduais, contribuindo para a formulação deste documento representativo da juventude negra, além da construção do Fórum permanente de Juventude Negra. Hoje são atributos do fórum:

O Fórum Nacional de Juventude Negra é uma construção que vem se dando paralelo ao Encontro Nacional de Juventude Negra. Este Fórum será uma organização composta por jovens negros (as), estruturada de forma plural, suprapartidária, afrocentrada e sem vínculos religiosos. A iniciativa visa manter uma articulação permanente entre os (as) jovens negros e negras, garantindo a autonomia das articulações estaduais com iniciativas regionais.



O Fórum Nacional de Juventude Negra consiste em um espaço de diálogo e aglutinação de grupos, movimentos, organizações e articulações de juventude negra, e demais jovens negros (as) interessados na organização e articulação nacional desta juventude, com perspectivas de ação e intervenção social. O Fórum assumirá um papel ativo e propositivo, visando uma atuação que respeite as diferenças e especificidades, fomentando a inclusão de jovens das periferias e comunidades socialmente excluídas dos processos de participação social, procurando consolidar este espaço como rede de informação e referências, na identificação dos desafios dos grupos (as) negros (as) juvenis e na construção de diretrizes voltadas às políticas públicas e às proposições para o plano de ação da juventude negra. (Documento do Encontro Nacional de Juventude Negra, julho, 2007).



Para os Hausas o ENJUNE significa um avanço nas pautas nacionais da juventude negra.



A concretização de um sonho de ver a diversidade de juventudes negras pensando soluções para problemas comuns onde todas e todos estamos submetidos. Formular agenda consensuais e fazer a diferença nas lutas étnico / raciais nesse país. Lamentável a manipulação de setores viciados dentro dos movimentos sociais que manipularam muitos dos participantes e a partir do fórum ainda tenta empurrar goela a baixo uma agenda de partido como se esse fosse o única via de mudança para nosso povo. (Entrevistado Honerê Al-amin Oadq – 25/09/2007).



Assim como qualquer setor que enfrenta dificuldades nessa sociedade excludente, e se organiza de maneira coletiva para dar respostas a determinada forma de opressão, a Juventude Negra se mobilizou a nível nacional para pensar através de suas diversidades mecanismos luta contra a discriminação racial. Pensar o HIP HOP neste momento sem discutir o ENJUNE, do qual as diversas organizações nacionais e locais de HIP HOP estiveram presente, seria negar um momento histórico tanto das diversas manifestações da juventude negra, como do HIP HOP, que é um instrumento de luta e expressão desse segmento nas periferias do Brasil e do mundo. É principalmente, através do movimento HIP HOP nos dias de hoje que ouvimos ressoar o sentimento das juventudes negras.



CONCLUSÃO



Em forma de rima pode crê eu vou falar/ Dentro do Atlântico Negro o HIP HOP está/ Ser uma mina do movimento/ Falando pra todo mundo dessa forma de entretenimento/ Não é fácil nas universidades do mundo/ Da antropologia tem que se tirar um conhecimento profundo/ Novos paradigmas surgem a partir daí/ Atravessando a ponte, a universidade conheci/ E do outro lado de lá trouxe o conhecimento que se faz presente/ Diante dele a academia não pode ficar como indiferente/ Através do quinto elemento/ O HIP HOP trabalha a informação/ Luta contra o racismo e a discriminação.

Atitude e proceder/ o HIP HOPPER tem que ter/ para a indústria cultural não se render/ a cultura é alvo de mercantilização / mas através das Posses o HIP HOP mantém sua tradição/ Cultura e movimento/ Os dois se unem e fazem o arrebento/ DJ e MC vão se juntando com o tempo/ Criando a música RAP como forma de protesto/ assim o jovem negro soltava seu manifesto/ E assim os B.boys e B.girls criavam seus ritmos dançantes/ Enquanto o DJ soltava as batidas do Soul e do Funk/ misturando as batidas com as melodias que sampleava/ tornando-se assim o bandido na levada/ E os grafiteiros com seu caráter informativo/ exteriorizavam seus pensamentos em forma de letras e desenhos irônicos e divertidos/ tudo isso junto ao conhecimento/ à prática cultural desse movimento.

Contra o racismo forjado dentro da cientificidade/ o movimento da negritude se torna realidade/ quando ressignificado o termo que era usado para negatividade/ os negros da diáspora formaram uma unidade/ pois representavam toda uma diversidade/ vieram vários grupos étnicos do continente africano/ que atravessaram o oceano resistindo ao poder branco/ na escravidão estabeleceram dinâmica/ não aceitaram a subestimação e lutaram contra a exploração desde a infância.

As rodas, os griots e os tambores/ sobreviveram há décadas até chegar nos tremores/ das manifestações do HIP HOP/ na década de 1960 onde o movimento da negritude era muito forte/ influenciado pelo soul, pelo funk, pelo jazz/ e tantos outros movimentos da música negra com viés/ cultural e político essa é a mistura/ dos negros que lutam e lutavam por mudança de estrutura.

No contato com o Novo Mundo houve uma reconstrução/ criando mecanismo de afirmação/ da identidade desligada da territorialidade/ preservando a diversidade cultural até a atualidade/ essa é a contracultura da modernidade/ africanos sobreviveram à perversidade.

Cultura foi um instrumento de arregimentação/ para a atuação política dos movimentos pela libertação/ é característico dos grupos negros até hoje/ expressar uma mensagem crítica e política através da arte, locutores.

A Posse Hausa com responsabilidade racial/ não encara o racismo como algo natural/ tendo o HIP HOP como seu instrumento de mudança social/ atua firmemente na comunidade local/ levando o HIP HOP para as ruas/ protagonizando o movimento da juventude negra firme e forte na luta/ o ENJUNE para eles foi a concretização/ do sonho que dividiram com muitos irmãos/ se discutir como juventude que está sujeita à marginalidade/ como autores de si próprios que querem mudar a sua realidade.

É uma grande família a Posse Hausa/ construindo a auto-estima de maneira conjunta/ o HIP HOP proporcionou a eles uma grande formação/ levou para as quebradas a conscientização/ fortalecendo essa identidade negra sempre em construção/ atuando como movimento negro em todos os espaços de mobilização/ é isso ai então/ HIP HOP propiciou a eles a desalienação.



Esse trabalho me proporcionou uma grande formação/ trazendo à tona uma série de perguntas para continuar em ação/ o campo e a teoria formaram uma junção/ que propiciou uma melhor interpretação/ da prática dos HIP HOPPERS hoje que promovem uma identidade em construção/ pan africanistas em busca de referenciais/ que estão baseados na luta histórica negra para alcançar seus ideais.

Seguindo em frente continuarei na discussão/ através de novas pesquisas buscarei mais informação/ pois o Atlântico Negro para a antropologia é fundamental/ para entender as manifestações negras em nível internacional.



REFERÊNCIAS



LIVROS:



ANDRADE, Elaine Nunes de. (org.). Rap e educação, rap é educação. 1ª edição. São Paulo: Selo negro Edições, 1999.



BASTIDE, Roger; FERNANDES, Florestan. Brancos e negros em São Paulo: ensaio sociológico sobre aspectos de formação, manifestações atuais e efeitos do preconceito de cor na sociedade paulistana. 2a edição. SP: Companhia Editora Nacional, [1955] (1959).



BERND, Zilá. O que é negritude. São Paulo: Editora Brasiliense S/A. 1988. (Coleção Primeiros Passos, n. 209).



BIKO, Bantu Steve. Escrevo o que eu quero. Editora Ática: 1990.



BOAS, Franz. Antropologia cultural. Org. Celso Castro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.



DERRIDA, Jacques. A estrutura, o signo e o jogo no discurso das Ciências Humanas. IN: A Escritura e a Diferença, 229-249. São Paulo: Perspectiva, 1971.



FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classe. São Paulo: Editora Dominus Universidade de São Paulo, 1965.



FERNANDES, Florestan. Brancos e Negros em São Paulo. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1995.



GEERTZ, Clifford. 1998. “Do ponto de vista do nativo: a natureza do entendimento antropológico”. In: O saber local,. Petropolis: Vozes. Pp. 85-107.



GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.



GILROY, Paul. O Atlântico Negro. Modernidade e dupla consciência, São Paulo, Rio de Janeiro, 34/Universidade Cândido Mendes - Centro de Estudos Afro-Asiáticos, 2001.



GILROY, Paul. O Atlântico Negro. Modernidade e dupla consciência.Tradução por Cid Knipel Moreira. 1. ed. São Paulo: Editora 34; Rio de Janeiro: Universidade Candido Mendes/Centro de Estudos Afro – Asiáticos, 2001.



GONZALES, Lélia. “O movimento negro na última década.” In: GONZALEZ, Lélia e HASENBALG, Carlos. Lugar de negro. Rio de Janeiro, Marco Zero, 1982.



GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro:. Civilização Brasileira, 1979.



GUIMARÃES , A. S. A. A modernidade Negra. Teoria & pesquisa, São Carlos, n. 42-43, p. 41-62, 2003.



IANNI, Octávio. Raça e classes sociais no Brasil. RJ: 1972. 2ª Edição, Editora Civilização Brasileira.



LÉVI-STRAUSS, Claude. O Pensamento Selvagem. RJ: Zahar Ed., 1983.



MALINOWSKI, B. Os argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Abril, 1984.



MAUSS, M. "Ofício de etnógrafo, método sociológico". In: CARDOSO DE OLIVEIRA, R. (org.) Marcel Mauss: Antropologia. Coleção Grandes Cientistas Sociais, Volume 11. São Paulo: Ática, 1979.



MOURA, Clóvis. Os quilombos e a rebelião negra. São Paulo: Brasiliense, 1981.



MUNANGA, Kabengelê e GOMES, Nilma Lino. Para entender o negro no Brasil de hoje. São Paulo: Global/ Ação Educativa, 2005.



MUNANGA, Kabengele. Construção da Identidade Negra no Contexto de Globalização. In: Relações Raciais e Educação: Temas Contemporâneos. Editora EdUFF, Niterói, RJ: 2002: 61-83.



MUNANGA, Kabengele. Negritude. Usos e sentidos. Ed. Ática. São Paulo:SP, 1988.



MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. Identidade Nacional versus Identidade Negra. 2. ed. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2004.



MUNANGA, Kabengele. Uma Abordagem conceitual das noções de Raça, Racismo, Identidade e Etnia. In: Relações Raciais e Educação: Temas Contemporâneos. Editora EdUFF, Niterói, RJ: 2002: 15-34.



NUNES, João Arriscado. Teoria crítica, cultura e ciência: Os espaços e os conhecimentos da globalização. In: A globalização e as ciência sociais. Boaventura de Sousa Santos (ORG.), 3ª edição, São Paulo: Cortez, p. 301-344, 2005.



PANFICHI, A. e CHIRINOC, P. V. M. Sociedade Civil e governabilidade nos Andes e no Cone Sul: Uma visão panorâmica na entrada do século XXI. In: Sociedade Civil e Espaços Públicos no Brasil. Evelina Dagnino (organizadora). Ed. Paz e Terra e Ed. UNICAMP/IFCH. 303-330, 2002.



PEIRANO, Mariza. Antropologia no Brasil (alteridade contextualizada). Em: O que. ler na Ciência Social Brasileira, Sergio Miceli (org.), 2002, pp. 225-266.



REIS, João José. “Rebelião escrava no Brasil: A História do Levante dos Malês em 1835”. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.



ROCHA, Janaina; DOMENICH, Mirella; CASSEANO, Patrícia. HIP HOP a periferia grita. 1. edição. São Paulo: Editora Perseu Abramo, 2001.



SILVA, Vagner Gonçalves. O antropólogo e sua magia. São Paulo: EDUSP, 2000.



VIANNA, Hermano. O mistério do samba. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor/Editora UFRJ. 1995.



DISSERTAÇÕES/ TESES/ TCC’S:



RIBEIRO, Christian Carlos Rodrigues. O movimento HIP HOP como gerador de urbanidade: um estudo de caso sobre gestão urbana em Campinas. Campinas, 2006. 235f. Dissertação de Mestrado apresentada no curso de Pós-Graduação em Urbanismo, Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Campinas, 2006.



MARQUES, Eder Rodrigo Carvalho. Para além dos quilombolas urbanos : hip hop, o movimento social urbano que possibilita transformar territórios através de ação política e arte. Campinas, 2006, 99f. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado a Faculdade de Geografia, Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Campinas, 2006.



PIMENTEL, Spensy Kmitta. O Livro vermelho do HIP HOP. São Paulo, 1997. Trabalho de conclusão de curso apresentado a Escola de Comunicação/ ECA, Universidade de São Paulo. São Paulo, 1997.



REVISTAS E PERIÓDICOS CIÊNTIFICOS:



ALVES, Arivaldo Lima. A legitimação intelectual negro no meio acadêmico brasileiro: negação de inferioridade, confronto ou assimilação intelectual?, Afro-Ásia, nº 25-26, 281-312, 2001.



ALVES, Flávio Soares e DIAS, Romualdo A dança Break: corpos e sentidos em movimento no Hip-Hop. Motriz, Rio Claro, v.10, n.1, p.01-07, jan./abr. 2004.



CARVALHO. José Jorge de. O Olhar etnográfico e a voz subalterna. IN: Horizontes Antropológicos, ano 7, nº 15, Porto alegre, 2001: 107-147.



MAGNANI, José Guilherme Cantor. De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana. Rev. bras. Ci. Soc., Jun 2002, vol.17, no.49, p.11-29.



MAGRO, Viviane Melo de Mendonça. Adolescentes como autores de si próprios: Cotidiano. Educação e o Hip Hop. Caderno Cedes, Campinas, v. 22, n. 47, agosto de 2002, p. 63-75.



MIRANDA. Jorge Hilton de Assis. Relação de Mercado e Trabalho Social no Hip-Hop. artigo de avaliação final na disciplina Sociologia do Trabalho ministrada por Maria da Graça Druck, semestre 2005-1 na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas/UFBA.



PEREIRA, João Batista Borges. Negro e Cultura Negra no Brasil Atual. IN: Revista de Antropologia, Vol 26, 1983: 93-101.



PINHO, Osmundo de Araujo & FIGUEIREDO, Angela. Idéias Fora do Lugar e o Lugar do Negro nas Ciências Sociais Brasileiras. Estudos Afro-Asiáticos. Ano 24, no. 1, 2002. Pp. 189-210.





PINHO, Osmundo de Araújo. (2001) “Voz Ativa”: rap – notas para leitura de um discurso contra-hegemônico. Sociedade e cultura. Revista de Pesquisa e Debates em Ciências Sociais. Goiânia, Ed. da UFG. v.4, n. 2. jul/dez.



Revista National Geographic, abril de 2007, ano 7, nº 85.



SAHLINS, Marshall. O "pessimismo sentimental" e a experiência etnográfica: por que a cultura não é um "objeto" em via de extinção (parte I). Mana, Abr 1997, vol.3, no.1, p.41-73.



SANSONE, L.; SANTOS, J.T. (Org.). Ritmos em trânsito: sócio-antropologia da música baiana. São Paulo: Dynamis; Salvador: Programa A cor da Bahia e Projeto s.a.m.b.a, 1997.



SEYFERTH, Giralda. Giralda. Etnicidade e cultura: a constituição da identidade teuto-brasileira. In: ZAHUR, G. de C. Leite (org). Etnia e nação na América Latina. V. II. Revista História Regional , 1991, p. 17-36.



SILVA, Vagner Gonçalves da; REIS, Letícia Vidor de Souza; SILVA, José Carlos da (Org.). Antropologia e seus espelhos: a etnografia vista pelos observados. São Paulo: Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, USP, 1996.



STOLCKE, V. Sexo está para gênero assim como raça para etnicidade? Estudos Afro-Asiáticos. Rio de Janeiro, v. 20, p. 101-119, 1991.



WEBGRAFIA:



CUNHA JUNIOR, Henrique. Ver vendo, versando sem verso, escrevendo e se inscrevendo no Hip Hop. In: http://www.espacoacademico.com.br/031/31ccunha.htm, acessado em 20/09/06 às 18: 30h.



GEREMIAS, Luiz. A Fúria Negra Ressuscita: as raízes subjetivas do HIP HOP brasileiro. Rio de Janeiro, 2006, 156f. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/geremias-luiz-furia-negra-ressuscita.pdf. acessado em 03/07/07 às 14:30h.



VIANNA, Hermano. O Atlântico Negro. In: www1.uol.com.br/fol/brasil500/dc_7_3.htm, acessado em 03/04/07 as 10:00h



ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva. Estudos Avançados. Vol. 18, n. 50, São Paulo, 2004. (versão impressa) In: www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=s0103-40142004000100020&Ing=pt&nrm=iso, acessado em 20/01/2006 as 00:10h



http://www.possehausa.blogspot.com/ acessado em 30/06/06 as 11:00h.



www.orkut.com acessado em 13/03/2007 as 20:30h.



www.realhiphop.com.br acessado em 14/06/07 as 19:15h.



www.xlrap.net acessado em 20/10/2007 ás 22:00h.



GLOSSÁRIO



3D - Estilo tridimensional, baseado num trabalho de brilho / sombra das letras.

Asdolfinho - Novo estilo de graffiti desenvolvido por americanos, no qual é visado a pintura animal.

B. boys/B.boy - Dançarino de Break.

B. Girls/B. girl - Dançarina de Break.

Backjump - Comboio pintado em circulação, enquanto está parado durante o percurso (numa estação por exemplo).

Bailes Blacks - Ponto de encontro predominante da juventude negra, com execução de estilos musicais como soul music, funk, além de artistas nacionais como Tim Maia e Jorge Bem (Jor).

Bite - Cópia, influência directa de um estilo de outro writer.

Black Power - Movimento de contestação social originário dos anos de 1960, que pregava o pleno direito cidadão à população negra norte americana, fortemente influenciado pelos movimentos de direitos civis iniciados na década de 1950. Com o passar dos anos tornou-se um referencial de auto-afirmação da população negra mundial, sendo até hoje referência para as entidades de direitos cidadãos do povo negro.

Bombing - Graffiti rápido, associado à ilegalidade, com letras mais simples e eficazes.

Break - Referência a um dos estilos de dança de rua que veio a se caracterizar como um dos elementos constituintes do hip hop.

Bronx - Bairro tradicionalíssimo da cidade de Nova York.

Bubble Style - Estilo de letras arredondadas, mais simples e "primárias", mas que é ainda hoje um dos estilos mais presentes no graffiti.

Cap - Cápsula aplicável ás latas para a pulverização do spray. Existem variados caps, que variam consoante a pressão, originando um traço mais suave ou mais grosso (ex: Skinny", "Fat", "NY Fat Cap", etc).

Characters - Retratos, caricaturas, bonecos pintados a graffiti.

Crew - "Equipe", grupo de amigos que habitualmente pintam juntos e que representam todos o mesmo nome. É regra geral os writers assinarem o seu tag e respectiva crew (normalmente sigla com 3 ou 4 letras) em cada obra.

Cross - Pintar um graffiti por cima de um trabalho de um outro writer.

Degradé - Passagem de uma cor para a outra sem um corte directo. Por exemplo uma graduação de diferentes tons da mesma cor.

Diáspora africana: Processo de adaptação e de (re)significação cultural e social da população africana transportada como escrava para as Américas.

DJ/Dj/dj: Disk Jokey, elemento que junto com o MC forma a rap music, têm a função de comandar as pickup’ s e fornecer o ritmo da música.

End to end - Carruagem ou comboio pintado de uma extremidade à outra, sem atingir a parte superior do mesmo (por ex. as janelas e parte superior do comboio não são pintadas).

Fill-in - Preenchimento (simples ou elaborado) do interior das letras de um graffiti.

Graffiti - Constitui um dos elementos do movimento HIP HOP, é a forma de expressão artística transportada para as paredes públicas.

Hall of Fame - parede onde só pintam os mais respeitados e consagrados writers; pode ser legal, mas na maioria das vezes não o é.

Hall of Fame - Trabalho geralmente legal, mural mais trabalhado onde normalmente pinta mais do que um artista na mesma obra, explorando as técnicas mais evoluídas.

Highline - Contorno geral de toda o graffiti, posterior ao outline.

HIP HOP: Saltar mexendo os quadris. Inclui cinco elementos, o DJ, o MC, o Graffiti, e o Break.

HIP HOPPERS: Adeptos da cultura e movimento hip hop.

Hot Spots - lugares mais arriscados para graffitar.

King - Writer que adquiriu respeito e admiração dentro da comunidade do graffiti. Um estatuto que todos procuram e que está inevitavelmente ligado à qualidade, postura e anos de experiência.

Mc's – Mestre de Cerimônia, anima as festas, e junto com o DJ faz o RAP.

Outline - Contorno das letras cuja cor é aplicada igualmente ao volume das mesmas, dando uma noção de tridimensionalidade.

Pick ups: Aparelhos de toca discos de onde o dj produz a música para a atuação do rapper.



Posses: Organizações locais de HIP HOPPERS que atuam politicamente.

Quebrada: quebrada é o bairro onde vivem.

RAP: Estilo musical formado pela atuação do dj e do rapper, influenciado musicalmente pela soul music e o funk, representa a união do “rithymin and poetry” (ritmo e poesia) daí a expressão formada com inicial das três palavras em inglês (rap).

Rapper: Cantor de RAP.

Roof-top - Graffiti aplicado em telhados, outdoors ou outras superfícies elevadas. Um estilo associado ao risco e ao difícil acesso mas que é uma das vertentes mais respeitáveis entre os writers.

Scratch(s): Uma das técnicas do dj. consiste em tirar sons dos vinis utilizando a agulha das pick ups para esse fim, literalmente raspasse o vinil sem alterar, riscar, os códigos musicais nele contido.

Sound Systems: Grandes equipamentos de som utilizados para realização das block parties.

Spot - Denominação dada ao lugar onde é feito um graffiti.

Tag - Assinatura do writer

Throw-up - Estilo situado entre o "tag"/assinatura de rua e o bombing. Letras rápidas normalmente sem preenchimento de cor (apenas contorno).

Top to bottom" - Carruagem ou carruagens pintadas de cima a baixo, sem chegar no entanto às extremidades horizontais.

Toy - O oposto de King. Writer inexperiente, no começo ou que não consegue atingir um nível de qualidade e respeito dentro da comunidade.

Train - Denominação de um comboio pintado.

Whole Train - Carruagem ou carruagens inteiramente pintadas, de uma ponta à outra e de cima a baixo.

Wild Style - Estilo de letras quase ilegível. Um dos primeiros estilos a ser utilizado no surgimento do graffiti.

Writer - Artista que pinta graffiti.

Writers - elementos da crew que se dedicam a pintar graffitis.



[1] O Jongo é uma dança rural afro-diaspórica (por envolver elementos culturais africanos) desenvolvida no Brasil no séc. XIX, integra percussão de tambores, dança coletiva, canto a práticas de magia(IPHAN, 2005). Nasceu como forma de sociabilidade entre os negros escravos que trabalhavam nas lavouras de café e cana-de-açúcar na região do Vale do Paraíba, sudeste Brasileiro, onde predomina até hoje.



[2] Paul Gilroy(2001) cria o conceito de sublime escravo para designar o caráter de dor e prazer implícitos nos modos de comunicação construídos pelos escravos e seus descendentes.



[3] Diagrama elaborado com base na matéria “Planeta HIP HOP” de James McBride, publicada na Revista National Geographic Brasil, abril de 2007, ano 7, nº 85. Essa matéria contém um mapa cronológico sobre a trajetória da música negra desde a escravidão até a chegada do movimento HIP HOP.



[4] “Rap significa “Rhythm and Poetry” e pode ser entendida como a vertente literária do movimento (é interessante notar que a palavra “rap” também é usada como “bater” e, curiosamente, nomeia aquelas batidas misteriosas que dizem haver nas casas mal-assombradas). O scratch diz respeito à arte do DJ, sendo o ruído que ele consegue “arranhando” o disco com a agulha ao girá-lo no sentido inverso, sendo que a arte da discotecagem abrange principalmente a criação das “bases”, com o uso do sampler – um aparelho que “mistura” sons, como os teclados eletrônicos. O break é a dança do hip-hop, que exige grande disciplina física e expressão corporal. O graffiti é a vertente gráfica, é praticado principalmente em muros” (Geremias, 2006, p. 17).



[5] Beat Street é um musical urbano que mostra a origem do hip-hop. Situado em Nova Iorque, na década de 80, o filme foca a vida de um grupo de adolescentes que tentam entrar no mundo da música. Mostra-nos a história de do DJ Kenny (Guy Davis) e a história do writer Ramon (Jon Chardiet), entre outros. O filme conta com participações de nomes sonantes do hip-hop como Melle Mel, Doug E Fresh, Kool Moe Dee, Rocksteady Crew, Jazzy Jeff e Arthur Baker. Duração: 105min.



[6] DJ do grupo de Rap Racionais MC’s.



[7] Música do disco "Preste Atenção" (1996). Esta música foi composta pela dupla Thaide e DJ Hum.



[8] Em 1987 realiza-se o primeiro campeonato mundial de DJs, o DMC (Disco Mix Club), patrocinado pela empresa Technics. Participa nesta inauguração o grupo de rap Public Enemy. Este campeonato começou a ser realizado todos os anos e deu a conhecer DJs como Chad Jackson, Cash Money, Q-Bert, Mix Master Mike, Cut Master Swift, Dj David, Roc Raida, Dj Noise, Crazy B e muitos outros. Todos estes DJs mostraram ao mundo novas técnicas, e foram melhorando o Scratch, criando o Beat-Juggling, e todas estas novas formas de manipular o som, receberam o nome de Turntablism. Segundo a definição da I.T.F. (International Turntablism Federation), um "Turntablist" é uma pessoa que utiliza um “turntable” (disco) como um componente para fazer música, bem como para tocá-la. Hoje em dia o turntablism cresce muito rápido, devido em parte, aos campeonatos do DMC e da I.T.F. (que recentemente se realizou pela primeira vez em Portugal). Disponível em: http://www.xlrap.net Acessado em vinte de julho de dois mil e sete as dezenove horas.



[9] Assinatura do writer.



[10] Elementos da crew que se dedicam a pintar graffitis.



[11] Pequeno grupo de jovens que se constituem dentro da comunidade graffiti; podem incluir writers, mc's, dj's e b-boys, ou apenas alguns deles.



[12] Writer muito conceituado e respeitado.



[13] Forma agressiva de espalhar o tag; mais ligada ao vandalismo do que à arte.



[14] Chamados de Hot Spots.



[15] A descrição dessas categorias podem ser vistas no glossário deste trabalho.



[16] Música Capítulo 4, versículo 3 do álbum “Sobrevivendo no Inferno”.



[17] Pode ser consultado no site: www.enjune.com.br .



[18] Ku Klux Klan é uma organização racista dos Estados Unidos que prega a supremacia branca e é tido como referência para movimentos racistas no mundo, inclusive no Brasil.



--------------------------------------------------------------------------------

0 comentários: